PEROGUARDA - Passado e Presente


El Angel Caído


Meu Alentejo
Meu sol-pôr de agonias
Ontem cantigas
Hoje lamento
Quem pintou de negro os teus dias?
A mão do homem? A mão do tempo?



Povo que canta não pode morrer ...




HOMENAGEM AO ALENTEJO
ISAURINDA BRISSOS
Produção e imagens
Isaurinda Brissos




O Cante da minha Terra ...

Canta o semeador
Enquanto semeia o trigo
Sua cantiga é de dor:
Adeus Michel meu amigo.

Abre-se a terra ao encanto
Daquela cantiga triste
E escreve em sulcos de pranto
Adeus Michel que partiste.

Tece um ramo a camponesa
De um adeus que traz consigo
Murmura como quem reza
Adeus Michel meu amigo.

Passarinho sempre alegre
Porque cantas hoje tão triste?
Choro um adeus que se despede
Adeus Michel que partiste.

Poema
Virgínia Maria Dias




Muito mais do que uma mera colectânea de textos e notações musicais, este livro constitui um verdadeiro itinerário pelo mundo da música popular portuguesa, bem como um estudo acessível, completo e documentado sobre um tema riquíssimo e sempre actual.
Ao longo das suas páginas é toda a extraordinária diversidade da música popular portuguesa – parte viva e importante do nosso património cultural – que se revela aos olhos do leitor.
Resultado de dois anos de intenso trabalho do investigador Michel Giacometti – o qual, ao longo de mais de duas décadas, percorreu o nosso país, de Norte a Sul, até às localidades mais remotas e esquecidas, recolhendo, criteriosa e pacientemente, as autênticas expressões musicais do nosso povo –, o Cancioneiro Popular Português é uma das mais completas obras do género desde sempre publicada no nosso País e uma das poucas, no contexto europeu, que reproduz fielmente todo um folclore musical ainda hoje vivo e actuante nas tradições de um povo.

Das canções de berço às toadas ao redor da morte, das cantigas de noivado e casamento aos cantos de trabalho, das cantigas e danças para as festas e arraiais às canções de bem-querer e maldizer, tudo está presente nesta obra única no panorama editorial português.

Na elaboração deste trabalho, Michel Giacometti contou com a colaboração de Fernando Lopes-Graça, tendo conseguido reunir material valiosíssimo e inédito: são apresentadas 250 espécimes musicais, para além de fotos de inúmeros instrumentos musicais populares e utilíssimas referências bibliográficas complementares, bem como uma cuidada informação discográfica.

Ao englobar no seu trabalho vários domínios da expressão popular, o autor salvaguardou do esquecimento uma parcela importante do nossso património cultural.
Por tudo isto, o Cancioneiro Popular Português constitui um passo de inegável relevância para o conhecimento necessário da nossa identidade.


Retirado do livro "Cancioneiro Popular Português" de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça - Círculo de Leitores, Lisboa.


O Mistério Giacometti

Reencontro com a memória


Povo que canta...

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Não pode morrer!

As imagens que fizeram história


Michel Giacometti, nascido na Córsega a 8 de Janeiro de 1929, licenciado em Letras de Etnografia, lança a âncora em Portugal em 1959. Por cá relaciona-se com o maestro Fernando Lopes Graça, que lhe transmite preciosas informações sobre o património musicólogo português e encoraja-o a realizar as suas primeiras projecções, ao norte do País.
Michel Giacometti descobriu Peroguarda através de António Reis, cineasta e poeta portuense. Este, por sua vez, apaixonou-se pela aldeia ao presenciar uma actuação do seu grupo coral, no Porto. “Ficou maravilhado com as nossas vozes e já não nos deixou” conta João Relvas, de 79 anos. “Quando nos viemos embora, ele veio atrás de nós, numa lambreta”.
A partir daí, e durante alguns anos, Reis, foi uma presença assídua em Peroguarda, tendo procedido a recolhas de poesia popular e idealizado a realização de um filme, que o seu desaparecimento em 1991, frustrou.

António Reis era exuberante. Giacometti era reservado, sóbrio de palavras. Quem o quisesse entender tinha de saber ler-lhe o olhar, sentencia, saudosa, Virgínia Maria Dias. O que os fascinava em Peroguarda? Diziam que a nossa voz era mais doce que a gente de outras terras… Não sei se era ou não. Sei que o povo abriu-lhes os braços e deu-lhes todo o afecto. Entre o senhor Michel e o meu tio Caranova existia uma amizade que é difícil descrever. Para ele, Michel era tudo. Apesar de analfabeto, Joaquim Caranova era um profundo conhecedor do cante alentejano, além de virtuoso intérprete.

Citando Fernando Lopes Graça e criticando os adulteradores, costumava dizer:

- “A música para ser séria tem de ter lá as notas todas”.


Afecto assim não o sentia Giacometti da parte das instâncias oficiais, que sempre se mostraram indiferentes ao seu trabalho e nunca lhe deram apoio.

"Cheguei a fazer prospecção sem nada na algibeira. De madrugada, sozinho, para poupar, desgravava as fitas que tinha gravado durante o dia se a música não me parecia suficientemente interessante para a conservar", confessou Giacometti ao jornalista Adelino Gomes, numa das suas últimas entrevistas.

Agostinho Brissos Pereira e João Relvas corroboram esta escassez de meios. Não nos lembramos de ter dormido uma única vez em Peroguarda. Terminada a recolha, fosse a que horas fosse, partia. Talvez porque vinha sempre à boleia de amigos – nunca trouxe carro próprio – e não os queria demorar. O trabalho de pesquisa etnográfica era manifestamente insuficiente para Giacometti viver com largueza. As recolhas nunca lhes valeram nos momentos de dificuldade, sublinha Virgínia Maria Dias. Não tirou delas um proveito imediato, o que demonstra que ele vinha até nós por amizade sincera. E que tinha uma alma grande.

O etnomusicólogo corso procurava registar o cante polifónico alentejano na sua expressão mais autêntica. Em vez de grandes grupos corais, preferia juntar meia dúzia de pessoas, num ambiente informal de uma taberna ou de uma casa particular. “Não gostava de gravar muitas vozes ao mesmo tempo”, confirma Virgínia Maria Dias.

Sete ou oito à roda de uma mesa, na taberna da tia Vitorina ou na do Américo, eram suficientes. Para que o cante se soltasse, bastavam dois dedos de conversa e uns copos de vinho. Discretamente, o senhor Michel punha o gravador a trabalhar, para que ninguém se sentisse intimidado.

Ouvia-se então o Estravagante, o Menino, Améliazinha, Ao passar a ribeirinha ou Solidão, tema que Giacometti gostava particularmente, toda a pena do mundo em sílabas de enigmática beleza:


Solidão, ai dão, ai dão
Cá pra mim quer sim, quer não
Vem a morte e leva a gente
Quem não há-de ter paixão”.


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Segundo Virgínia Maria Dias, Giacometti não era homem de impôr nada, mas preferia que os cantadores se dispusessem em círculo. O seu marido Agostinho Brissos Pereira confirma que a experiência de muitos anos de cante, primeiro no grupo de Peroguarda, agora no de Alfundão.


Em círculo, o cante “puxa” mais. A voz é só uma, captamos todos os sons. De frente uns para os outros, sabemos o que estamos a cantar; só o mexer dos lábios são notas de música. A atenção a estes pormenores fazem de Peroguarda ainda hoje uma terra única, acentua Agostinho Pereira.


O nosso Grupo Coral Etnográfico Alma Alentejana, fundado em 1936 pelo professor Joaquim Roque, tinha a particularidade de ser um grupo misto. Se homens e mulheres cantavam juntos na ceifa, na azeitona, nos bailes, por que havíam de ficar separados no grupo?


Joaquim Roque, natural de Peroguarda, autor de vários livros sobre etnografia alentejana, entre eles “Alentejo cem por cento” teve a preocupação de vestir os elementos do grupo com trajes representativos dos diversos trabalhos agrícolas.


“Havia ceifeiras, mondadeiras, apanhadores de azeitona, varejadores, pastores, tudo com trajes diferentes”, lembra Agostinho Pereira.


Michel Giacometti (1929-1990) Etnomusicólogo francês, natural da Córsega. Estudou na Suécia, doutorando-se posteriormente na Universidade da Sorbonne (Paris). Radicou-se em Portugal em finais dos anos cinquenta, interessando-se pela recolha e gravação de música popular portuguesa. Ao longo de 30 anos, percorreu o país, gravando centenas de cantares e músicas tradicionais, dando origem àquele que é, até hoje, o mais exaustivo levantamento da cultura musical portuguesa.
Do seu espólio constam ainda centenas de instrumentos musicais, fotografias, recolhas de literatura popular e de instrumentos e materiais ligados ao trabalho rural, parte dos quais deu origem, em 1987, aos Museu do Trabalho Michel Giacometti (Setúbal).
Editou, em colaboração com Fernando Lopes Graça, a Antologia da Música Regional Portuguesa (1963, em cinco volumes) e, em 1981, um Cancioneiro Popular Português.

Foi ainda autor de uma série de documentários televisivos, sob o título Povo que Canta.
Grande parte do seu espólio musical encontra-se ainda por editar ou organizar.


Alentejo Ilustrado – Março 2004



Michel Giacometti faleceu a 4 de Novembro de 1990, em Faro, não sem antes ter expresso a vontade de ser enterrado em Peroguarda.

Pelos caminhos do Cante ...















Grupo Coral Etnográfico "Alma Alentejana " de Peroguarda



Grupo Coral Etnográfico "Os Trabalhadores" de Ferreira do Alentejo










Grupo Coral Etnográfico "Cantares de Évora"







Virgínia Maria Dias e Agostinho Brissos Pereira




Rancho Folclórico de Avis em Peroguarda
Bia traja à moda antiga

Blusa de chita em cores garridas, saia rodada, com aplicações de gorgorão e saiote aos folhos e bibe.
O bibe com peitilho, usa-se para proteger as roupas das brincadeiras no campo, e a inseparável boneca de trapos confecionada pela avó.

Cante ao Menino


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Boas Festas

Cantam-se em Peroguarda, só em noite de Natal e são sempre de carácter religioso em “Louvor do Deus Menino”.

Natal

A Noite Grande, a maior do calendário cristão.A noite de Natal passa-se em família, à lareira, em volta do tradicional madeiro que arde acariciadoramente.

Durante o serão que dura até alta madrugada, canta-se em louvor do Deus Menino, contam-se histórias e romances da sua vida, comem-se doces regionais de fabrico caseiro e bebe-se alegremente.

Lá fora, nas ruas, o povo canta agrupado em ranchos, à porta das pessoas mais abastadas ou na igreja.