Michel Giacometti
80 anos depois













Canta o semeador
Enquanto semeia o trigo
Sua cantiga é de dor:
Adeus Michel meu amigo

Abre-se a terra ao encanto
Daquela cantiga triste
E escreve em sulcos de pranto
Adeus Michel que partiste


Tece um ramo a camponesa
De um adeus que traz consigo
Murmura como quem reza
Adeus Michel meu amigo

Passarinho sempre alegre
Porque cantas hoje tão triste?
Choro um adeus que se despede
Adeus Michel que partiste


© Virgínia Maria Dias 




Povo que canta

Muito mais do que uma mera colectânea de textos e notações musicais, este livro constitui um verdadeiro itinerário pelo mundo da música popular portuguesa, bem como um estudo acessível, completo e documentado sobre um tema riquíssimo e sempre actual.

Ao longo das suas páginas é toda a extraordinária diversidade da música popular portuguesa – parte viva e importante do nosso património cultural – que se revela aos olhos do leitor.

Resultado de dois anos de intenso trabalho do investigador Michel Giacometti – o qual, ao longo de mais de duas décadas, percorreu o nosso país, de Norte a Sul, até às localidades mais remotas e esquecidas, recolhendo, criteriosa e pacientemente, as autênticas expressões musicais do nosso povo –, o Cancioneiro Popular Português é uma das mais completas obras do género desde sempre publicada no nosso País e uma das poucas, no contexto europeu, que reproduz fielmente todo um folclore musical ainda hoje vivo e actuante nas tradições de um povo.

Das canções de berço às toadas ao redor da morte, das cantigas de noivado e casamento aos cantos de trabalho, das cantigas e danças para as festas e arraiais às canções de bem-querer e maldizer, tudo está presente nesta obra única no panorama editorial português.

Na elaboração deste trabalho, Michel Giacometti contou com a colaboração de Fernando Lopes-Graça, tendo conseguido reunir material valiosíssimo e inédito: são apresentadas 250 espécimes musicais, para além de fotos de inúmeros instrumentos musicais populares e utilíssimas referências bibliográficas complementares, bem como uma cuidada informação discográfica.

Ao englobar no seu trabalho vários domínios da expressão popular, o autor salvaguardou do esquecimento uma parcela importante do nosso património cultural.
Por tudo isto, o Cancioneiro Popular Português constitui um passo de inegável relevância para o conhecimento necessário da nossa identidade.

Retirado do livro "Cancioneiro Popular Português" de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça - Círculo de Leitores, Lisboa.


Povo que canta...
Não pode morrer!


As imagens que fizeram história
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Ceifeira - sonho 
 
Sonhei sim! Mas nunca com riqueza
Nem sempre com uma vida ociosa
Sonhei ter uma cultura primorosa
Manejar o saber das letras com destreza


Sonho ousado para quem tão ignorante
Nem na língua mãe a portuguesa
Eu sei exprimir-me com clareza
Ou tão pouco escrevê-la correctamente.

Não me ensinaram os trigais
E neles eu trabalhei de sol a sol
Não me ensinaram o melro e o rouxinol
Nem a brisa das tardes estivais.

Não me ensinaram o vento suão
Nem as fontes onde eu ia buscar água
A todos eu conto a minha mágoa
Erro meu! Falei em vão.

Então cansada de sonhar
Empunhei hábil e com firmeza
A minha foice de camponesa
Mas meu sonho eu não consegui ceifar.

Se ignorante o destino me fadou
Jamais o poderei concretizar
Que parta!
Para que eu possa aceitar
Assim como o destino me talhou



Virgínia Maria Dias - Poetas de Peroguarda
Isaurinda Brissos - fotografia

Cante ao Menino de Peroguarda

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"O MENINO" Gravação feita por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça
em Peroguarda


Saudades de Michel Giacometti
A pequena aldeia de Peroguarda tem-no na memória.
António Caranova ainda se lembra de quando Michel Giacometti lhe assomou pela primeira vez à porta da Casa do Povo.
"Entre home!
"Ele vinha quando calhava, chegava à tarde e abalava já noite adentro"- diz Virgínia Maria Dias
O serão tinha quase sempre lugar marcado. "Aqui cantava-se muito na taberna. Quando havia um copinho pelo meio é que as vozes se soltavam ", recorda ela.
Michel Giacometti viria a gravar aqui "O Menino" ou "Os três Cavalheiros", canto de peditório pelos reis...
Depois fala destes dias em que um grupo de homens embrulhados em mantas ia à busca de esmola dos lavradores.
"Neste tempo havia muita fome no Inverno", confessa
Do cante, como chamam a estes cantares de sentido religioso, fazia parte também "O Menino", cantado em vésperas de Natal, ou a "Oração da almas" entoada à porta dos lavradores nas vésperas de Ano Novo.
Mas, como revela Caranova, a curiosidade de Michel Giacometti não se ficava pelas canções.
"Ele puxava muito pela nossa vivência. Nessa altura éramos uns seis com um arado ao lado uns dos outros, e a gente ia cantando"
Jornal "O Público" - 27/11/1994

Exposição de Fotografia




CAMINHOS DO CANTE

Cante
Etnografia
Tradição 

ISAURINDA BRISSOS 
Junta de Freguesia de Peroguarda
Sala de Convívio
21-22 -23 e 24 de Agosto 2009



Exposição incluida na programação da Festa de Anual Peroguarda em honra de Santa Margarida, padroeira da terra. 

Peroguarda - Ferreira do Alentejo - Beja - Portugal

Não fique a ver a banda passar...




No dia da Tradição e Folclore,
Festas de Peroguarda em honra de Santa Margarida.
Dias 21-22-23-24 Agosto 2009,


toda a Aldeia está em Festa
com Garraiada de touros , Grupos Corais e Procissão.

Peroguarda - Festa Anual em honra de Santa Margarida


Maria Esperança


21 de Agosto (Sexta-feira)
22.00h - Serões da Aldeia com talentos da Terra


22 de Agosto (Sábado)

Dia do Folclore e da Tradição - Tarde Cultural

17.00h
- Grupo Coral Etnográfico Misto “Alma Alentejana” de Peroguarda
- Grupo Coral Feminino “As Margaridas de Maio” de Sta. Margarida do Sado
- Grupo Coral “Os Trabalhadores” das Alcáçovas
- Grupo Coral Alentejano de Tunes, Silves
- Rancho Folclórico e Etnográfico “ Flores das Cortes" de Miranda do Corvo





22.00h - Baile com ANA
00.30h - Actuação dos artistas LUCAS & MATEUS e continuação do Baile



23 de Agosto (Domingo)

17.00h - Missa
18.00h - Procissão em honra de Santa Margarida, abrilhantada pela Banda Filarmónica de Ferreira do Alentejo



22.00h - Baile com “Duo Sensações”

24 de Agosto (Segunda-feira)
18.00h - Garraiada à Alentejana no Campo de Futebol

Organização: Grupo de Jovens de Peroguarda e Grupo Coral Etnográfico Alma Alentejana de Peroguarda

Viver numa aldeia no século XXI

Peroguarda, classificada a aldeia mais portuguesa do Baixo Alentejo, possui “riquezas inigualáveis”, dizem os seus habitantes. Uma das suas riquezas é a Igreja de Santa Margarida que apresenta traços quinhentistas.


Sobre as Festas Populares de que mais gosta, Virgínia esclarece:
-“Para mim a Procissão da Páscoa é a festa mais sentida. E essa procissão eu já a via ao colo da minha avó. É muito bonita. Os homens vão cantando as Aleluias, que são únicas no país. É muito bonito!” E quando Virgínia termina de dizer esta última frase começa a cantar, numa voz lenta, doce e triste: “Ressuscita o nosso Deus… Aleluia…” Depois compõe-se da emoção e retoma:
“Também gosto muita da festa de Santa Margarida. Antes a festa fazia-se em Outubro, que era a altura em que os ceareiros e os lavradores tinham dinheiro porque vendiam o trigo às fábricas e tinham dinheiro para pagar o fogo-de-artifício. Agora, a festa em honra da Santa Margarida é em Agosto porque é tempo de férias e é quando regressam muitas pessoas à aldeia. Mas há uns anos que não se deita o fogo porque há 20 anos o fogo de artificio provocou um incêndio. Aqui na aldeia ainda se fazem os funerais como na Idade Média. Alguém leva a cruz e de lado vão com as lanternas. Alguém vai atrás com o corpo e leva a opa preta. Outro transporta a mesa onde depois se pousa o caixão. Agora, e como a população está mais envelhecida e os novos não estão, só se faz o funeral assim se houver jovens na família dispostos a carregar o corpo”.


Nesta pequena aldeia de nome Peroguarda, onde está sepultado o conhecido etnomusicólogo, Michel Giacometti, que se enamorou pelo misterioso cante alentejano.

Foi por causa desse enamoramento que, contrariando a tradição, o povo cantou na hora da despedida “Fomos amigos do Michel Giacometti. Cantámos para Giacometti no da do enterro dele, foi a pedido dele que o fizemos”. Virgínia canta emocionada:

Ai solidão!
Cá para mim quer sim, quer não...
Vem a morte e leva a gente...
Quem não há-de ter paixão!
Que paixão não há-de ter...
Ai solidão!

E sobre aquele dia tão pesaroso para os habitantes de Peroguarda que ao etnomusicólogo queriam bem foi um correr de lágrimas e de tristezas. A poetisa recorda: “Foi emocionante ver o Grupo Coral de Peroguarda a cantar e a chorar. Aqueles homens todos choravam, homens rudes do campo, enrugados, face curtida do sol”. Este casal , Virgínia e Agostinho, privou com o amigo a quem tratavam por Michel, sem grandes cerimónias. “Ele vinha sempre a nossa casa e à casa de um tio meu. Era um homem muito humano...

Para mim ele tinha uma alma grande como a planície, bonita como as papoilas e rica como o trio”, palavras gravadas na sepultura daquele conceituado amigo da terra.
...

“Comecei a trabalhar no campo ainda menina e apaixonei-me pela aldeia e pelo campo porque esta aldeia é única. Esta terra é única em costumes e maneiras. As formas de lidar do povo, a sua entrega… são únicas. Havia um tanque perto de nossa casa e eu ia lá lavar a roupa, agora vou, mas menos vezes. Antes não havia água canalizada.
Há uns anos que tenho máquina de lavar roupa e lavo em casa. Antes, ia buscar água ao poço… As coisas eram diferentes. Trabalhei no campo até aos 50 anos.
A festejar o 25 de Abril parti-me toda, dei uma grande queda e deixei de conseguir trabalhar tanto no campo como fazia. Sempre trabalhei no campo, embora depois de ter tido o acidente tive de arranjar outro ganha-pão. Arranjei trabalho em frente a casa. Reformei-me na idade normal, com 65 anos”, conta Virgínia.
E sobre a terra que acredita ser a mais linda de todas diz:
“Vivi sempre em Peroguarda. Não conseguia viver noutro lugar. Quando ia ao concelho, que é aqui perto, não gostava, já não era igual, não é a mesma coisa. Peroguarda é uma aldeia com casas baixinhas. Há poucas casas que tenham primeiro andar. As ruas da aldeia são calcetadas com calçada antiga. As casas são muito branquinhas. Levantando o tempo as pessoas vêm caiar a frente das casas. À volta da aldeia, nas terras circundantes, há girassóis, boas cearas, alguns olivais. Gosto muito de estar rodeada pela natureza. Quando o tempo traz a geada é um sofrimento muito grande estar no campo, mas quando está tempo ameno, um dia quente, quando há sol, não há nada melhor do que estar no campo!”.
No campo não aprenderam apenas a lavoura, nem aprenderam apenas a separar “o trigo do joio”, aprenderam o cante, tão característico da alma alentejana.
“O campo era uma escola de canto, não era na aldeia que se aprendia. O sol-pôr era lindo! A aldeia ficava cheia de vida. O rancho dos almocreves, o rancho de camponeses num bulício de sons e cores, consagrando aos deuses”, diz Virgínia e Agostinho retoma: “Os melhores são os que aprenderam a cantar no campo. Os bons alentejanos são os que aprenderam a cantar no campo. Os camponeses vinham do campo a cantar”. Enlevada, as palavras tomam de novo conta dos seus lábios e, Virgínia canta: “O camponês sempre canta quando o cansaço fustiga...”; “Tudo era motivo para cantar...
Só não se cantava à volta da pessoa que morria”.




Virgínia Maria Dias e Agostinho Brissos Pereira
Viver numa aldeia no séc. XXI - Jornalista Rita Campos Fão
TVI - Fevereiro 2009

Crónicas Contadas I



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Haviam duas mercearias no Largo da Praça aonde se fazia a matança dos porcos...
Quem ajudava a matar o porco eram o carpinteiro de carros, Mestre Maia e o Sapateiro Zé Castro...e como prémio tinham direito às orelhas e ao rabo do porco.
Encomendava-se a carne para a moleja... faziam-se os torresmos do rissol...
O toucinho era esfregado e conservado em camadas de sal...
As linguiças da Inácia "Bataquinha" diziam... "come-me, come-me" ...

Chico d'Aurora é do tempo em que em Peroguarda se matava o porco na Praça. Agora, passeia apoiado ao seu cajado, devagarinho, pela Rua da Esperança, entre a casa e o Café Central.
- Sabes, diz-me ele com o olhar brilhante, antigamente a vida era mais simples e mais alegre. Quando chegava Sexta-Feira , a "Família" juntava-se ali na Praça e cada um contava as suas estórias. Na venda da Ti Inácia "Pataquinha" ou na da Ti Alice, todos ajudavam como podiam aqueles que viviam da matança do porco...
E, a caminho do Café Central começou a desenrolar a conversa...


A Matança do Porco
Um portão entreaberto deixa-nos ver um dos pátios. Estão todos a postos a banca de castanho, tosca, de pés divergentes, “a tripeça”, os largos alguidares vidrados de louça do Redondo, os feixes de tojo, as quartinhas com água. O animal preso na perna e tocado pelo moço da casa, entrou desconfiado. Os seus grunhidos, soltos de quando em quando, traduzem a interrogação do seu olhar, atirado de revés a quem passa. Há azáfama de pessoal. Toda a casa parece despertado por aquele acto… Quando os magarefes entram, na cinta a aljava de couro sujo, onde estão as facas afiadas, o rumor aumenta e o animal, sentindo o perigo, agita-se nervoso, olha para todos os cantos a ver se descobre a saída que o liberte enquanto os homens se movem na execução dos papéis antes distribuídos: Trazer as feixas, conduzir os barranhões, dar a água. E a função toma calor, mais vida, visto que “a família”, toda vem do interior para assistir.Os homens tomam então o animal, seguram-no, atam-lhe o focinho, não vá mordê-los ou atroar tudo com a gritaria. Deitam-no à força na banca estreita e, tendo-o assovacado e posto sem defesa, fazem que jorre, em ondas escaldantes, o sangue ardente, que em breve, enquanto o mexem com uma larga colher de pau, este pinta de rubro o alguidar de barro ou tacho de cobre.
Vibraram com agudeza estridente os primeiros gritos do animal. Foi um brado longo e aflitivo. Seguiram-se outros. Mas logo vieram os roucos desalentados do que não pode lutar, seguindo-se o afrontamento, a exaustação, a morte. Um grunhido doloroso e eis o último arranco da pobre vítima, imolada às necessidades da vida, às exigências materiais da humanidade, que ainda não quis compreender, para os aplicar, os princípios naturistas que a levariam a pôr de lado estes sangrentos e largos morticínios.
O suíno morto vai depois à musga. É um rápido acender de feixes de azinho, piorno ou tojo. O pelo dourado do animal em breve desaparece. Numa volta de mão, com desembaraço, as facas põem-lhe a descoberto os couros, brancos como faces barbeadas. Está postado no chão, de borco, o focinho roçando as lages, como se caminhasse de rastos sobre o ventre, quando o musgam na cabeça e nos lombos. Depois … é levado à fogueira, em peso, para lhe queimarem o pelo que resta.Em pouco, o primeiro acto passou. Vem a seguir a lavagem. Os cuidados prestados nesta última operação são de apreciar.Carregar o porco para o chambaril, prendê-lo pelos jarretes, abrir-lhe o ventre, separar as banhas, deixá-lo a secar durante a noite, a escorrer-lhe o sangue para um assado, são os prelúdios da desmancha que se realiza no dia seguinte.




Os Reis em Peroguarda

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Os Três Cavalheiros


Quais são os Três Cavalheiros
Que fazem sombra no mar
São os Três do Oriente
Que Jesus vêm buscar.

Não perguntam por poisada
Nem aonde ir anoitar
Perguntam por Jesus Cristo
E aonde o irão achar.

Foram-no achar em Roma
Revestido no altar
Com dez mil almas de roda
Todas para comungar

S. João ajuda a missa
S. Pedro muda o missal
Missa nova quer dizer
Missa nova quer cantar

Menino tão pequenino
Todo o mundo vem salvar
____________________________
Alentejo cem por cento - Prof. Joaquim Roque

As Janeiras em Peroguarda

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Abram-se lá essas portas
Que ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus Menino
Vou-lhes dar as Boas Festas

Boas Festas meus Senhores
Boas Festas lhe vou dar
Que nasceu o Deus Menino
Alta Noite de Natal

Alta Noite de Natal
Noite de Santa Alegria
Que nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria

Uma estrela se foi pôr
Em cima de uma cabana
A cabana era pequena
Não cabiam todos três
Adoraram o Menino
Cada um de sua vez

Abram-se lá essas portas
Que ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus Menino
Vou-lhes dar as Boas Festas

Boas Festas meus Senhores
Boas Festas lhe vou dar
Que nasceu o Deus Menino
Alta Noite de Natal

Alta Noite de Natal
Noite de Santa Alegria
Que nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria

Senhora dona da casa
Deixe-se estar que está bem
Mande-nos dar a esmola
Por essa rosa que aí tem

Abram-se lá essas portas
Que ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus Menino
Vou-lhes dar as Boas Festas

Boas Festas meus Senhores
Boas Festas lhe vou dar
Que nasceu o Deus Menino
Alta Noite de Natal

Alta Noite de Natal
Noite de Santa Alegria
Que nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria

__________________________________
Tradições de Peroguarda

Grupo Coral Etnográfico Alma Alentejana de Peroguarda



Grupo Coral e Etnográfico "Alma Alentejana" de Peroguarda

História e Características 


O Grupo Coral “Alma Alentejana” de Peroguarda, foi fundado em 1936, pelo Professor Joaquim Roque e apresentou-se ao público em 1938, no concurso das aldeias no qual Peroguarda se classificou a aldeia mais portuguesa do Baixo Alentejo.
Actuou durante muitos anos por todo o País, tendo tido a sua actividade suspensa nas décadas de 80. Em 1988, na comemoração dos 50 anos, reapareceu mantendo-se activo até hoje, com o seu cante genuíno, a sua alma alentejana, o seu traje tradicional e o desejo de conservar e preservar esta riqueza.

O "Alma Alentejana" veste de novo a sua farda de exibição.

Eles, chapéu de abas largas; camisa de riscado, geralmente azul aos quadrados miudinhos e atadas com um nó; punhos muito justos; jaqueta ou véstia de “saragôça”, peluche ou astracã; lenço branco à lavrador; cinta de fazenda preta ou seda com pontas terminadas por “cadilhos”; calça de cotim justinha à perna; meias de cores garridas; botas de atanado untadas com “cêbo de Holândia” e atadas com correias do mesmo cabedal ou botas ceneleiras.

Elas, saia de riscado; blusas com abas para fora com punhos feitos de tecido forte, para evitar que alguma espiga ou pragana os atravessasse; avental sobre a saia com rendilhados populares e cores bizarras; meias feitas em casa de cores extravagantes; botas altas de cabedal, apertadas à frente com entrelaçados de fitas; lenço de cachené, fazendo rebuço; chapéu de abas largas e luvas para os trabalhos da monda, ceifa e apanha da azeitona, iguais às meias; sobre as luvas durante as ceifas e enfiados nos dedos, os canudos de cana, para protegerem os dedos da foice.

O que os une é o cante, caminhando lado a lado, pelas ruas da aldeia, entoando as modas do seu vasto reportório, perante uma população em silêncio absoluto...

Rua Michel Marie Giacometti, Peroguarda



Rua Michael Giacometti - Peroguarda

Encontros em Peroguarda



Encontros [P]
de Pierre-Marie Goulet

105´Portugal/França 2006



1957: um grupo de camponeses de Peroguarda, no Alentejo, vai cantar ao Porto. O poeta António Reis, futuro realizador de "Trás-os-Montes", ouve esses cantos. Conquistado, toma o caminho de Peroguarda, com um gravador.

1959: Michel Giacometti, musicólogo de origem corsa, começa uma pesquisa de 30 anos. Não tarda a descobrir Peroguarda.

1965: no Porto, o jovem poeta Manuel António Pina, e outros jovens aspirantes a poetas escolhem António Reis como referência.

1966: O cineasta Paulo Rocha roda a sua segunda longa-metragem ("Mudar de Vida") no Furadouro, situando a história no meio dos pescadores que na infância o haviam fascinado. Estas e outras pessoas fazem parte de uma tribo informal cujos membros se reconhecem quando se encontram.

O filme "ENCONTROS" de Pierre-Marie Goulet recebeu o Mayor's Prize no Festival de Yamagata 2007 que decorreu de 4 a 11 de Outubro no Japão. Desde a sua estreia mundial no 17º FIDMarseille – Festival International du Documentaire de Marselha, onde foi galardoado com o prémio para melhor banda sonora.

"Encontros" é uma produção de Costa do Castelo Filmes e Athanor (Portugal) e Zarafa Films (França) e recebeu o apoio do ICAM, do CNC (França) e da RTP .

Polifonias





Em tempo de Boa Vontade



Francisco Costa

«Só ele foi capaz de descer às nossas raízes, abrir a terra, ir ao fundo delas, cheirar a essência delas, trazê-las ao de cimo. E a gente deu-as, e ficámos ainda mais ricos do que éramos. Só ele teve esse condão.»

(Virgínia Maria Dias, sobre Michel Giacometti,em «Polifonias», documentário, RTP 2, 29.12.97)


O homem, o caderno e o gravador

«É uma história bastante simples: é um homem que vem de outro país, que escutou atentamente os homens destas terras, e sabe que cantar e tocar é o atributo primeiro dos povos que conheceu. Tinha um caderno e um gravador. Quem será o homem? Vem para nos espiar? Nos prender? Vem para nos roubar do pouco que temos?»



Era assim, da mais bela e singela forma de agarrar o espectador, que começava, em forma de programa de televisão, aquela que foi a melhor prenda da época de Natal que a RTP tinha este ano para nos oferecer. Honra lhe seja!
Numa coprodução portuguesa, francesa e belga, transmitiu a estação da 5 de Outubro na passada segunda-feira um documentário a todos os títulos excepcional, verdadeira peça de amor por um povo - por todos os povos afinal - e pelas suas riquezas culturais e tradições artísticas, na exacta medida em que, falando-nos da obra de um investigador atento e rigoroso, nos deu a conhecer, ao mesmo tempo, a sua grandeza humana e o objecto riquíssimo da sua investigação.
O documentário «Polifonias» realizado por Pierre-Marie Goulet, mas no qual se destacaram inúmeras outras contribuições como a de Sérgio Godinho na autoria de um belíssimo texto, debruçava-se sobre o papel desempenhado na cultura e investigação etnomusicológica portuguesas por esse andarilho da recolha das tradições que foi o «nosso» Michel Giacometti. E não podia ser mais adequado à divulgação do trabalho ardoroso e apaixonado deste corso que aqui chegou e se apaixonou pelas nossas gentes e pela nossa música tradicional, enquanto criador e organizador das célebres e históricas Antologias dos Arquivos Sonoros Portugueses e como autor de um dos mais inesquecíveis programas em 40 anos de televisão portuguesa - «Povo que Canta» - também ele um acto de resistência interna, em plena ditadura da televisão fascista, no Portugal dos anos 60.
Inspirando-se em muitas imagens e sons desses memoráveis documentários, a equipa que se deslocou até nós foi trilhar de novo os mesmos caminhos, encontrar os mesmos sítios que então serviram de enquadramento paisagístico aos espécimes captados, gravados e filmados. E de novo foi ao encontro dos cantores de hoje, demorando-se por cá, quase exclusivamente em terras do Alentejo, e dando-nos depois a conhecer a música e os criadores da aldeia natal de Giacometti, em Zicavu, na Córsega. Talvez nunca, como neste filme, a câmara nos tenha desvendado de forma tão envolvente e ao mesmo tempo tão rigorosa e «distanciada» os rostos e as vozes de um coro alentejano, como na filmagem fabulosa dessa impressionante versão de «Ao Romper da Bela Aurora». Talvez nunca tenhamos descoberto, como aqui, a beleza impetuosa mas serena dos rostos, o calor transbordante dos corações, a força telúrica de uma paisagem, os silêncios sentidos e nascidos do sofrimento ciclicalente repetido e continuado de um povo que persiste em resistir à opressão, seja qual for a forma que esta assuma e o enquadramento sócio-político-cultural de que conjunturalmente se revista, consoante os tempos e os modos.
Peça exemplar da arte do documentário televisivo, «Polifonias» deu-nos mais uma vez a ver como a maestria técnica e o domínio dos meios de produção é essencial para que depois possamos esquecer-nos deles, no acto de transmitir gradualmente o calor da Arte e ultrapassar a própria frieza da Técnica, mas jamais sendo indiferente a posição da câmara, o cuidado do enquadramento, o próprio movimento exterior e interior ao plano. Sendo verdade que, na arte do documentário, o travelling representa talvez o mais íntegro sinal de respeito pelo objecto que se filma e procura interpretar e dar a entender, assim nos pudemos deslumbrar com os lentíssimos movimentos de câmara através dos quais se podiam descobrir as esquinas e os caminhos - mas também os Homens - ou a duração infinita dos planos gerais em que se perdiam de vista as montanhas da Córsega envoltas em névoas ou as planuras alentejanas rasgadas por linhas geométricas de contornos insuspeitados, à brasa do calor, ao som de uma canção: «Nesses campos solitários, onde a desgraça me tem, quase ninguém me responde, olho, não vejo ninguém.».
Mas, para sempre também, ficará na memória do espectador essa sequência na qual, em meio de uma panorâmica, de súbito surge no meio de um trio de cantores corsos a silhueta, antes conhecida, do rosto daquele velho alentejano, nesse espantoso encontro multicultural e multilinguístico em terras portuguesas de diversos herdeiros e senhores de tradições que, no fundo, sempre foram o objecto da paixão e o fio condutor do percurso cívico e científico de Michel Giacometti. Tal como dificilmente se voltará a inventar uma definição tão simples (e tão poderosa) para explicar a simples ideia da posse e do vazio, da opressão e da exploração - na expressão contida de Virgínia Maria Dias, ao dizer para a câmara: «Isto que a gente avista é de um só... Repartido, quanto é que isto não dava?».
Por esta capacidade de nos deixarem, ainda e sempre, atentos e despertos para a arte, mas também para a luta, aqui fica um caloroso bem haja aos criadores de «Polifonias».

31.Dezembro.97

Peroguarda, a aldeia mais portuguesa do Baixo Alentejo




Peroguarda é uma aldeia de feições miúdas.


O seu pequeno aglomerado de casa estende-se sobre o pendor de um pequeno outeiro.
A nascente corre, nos invernos, uma murmurante ribeira estreita. A poente, antes de atingir a povoação fica o cemitério, cuja edificação data de 1865, que nos deixa admirar as cornijas dos ciprestes que se erguem de dentro dos alvos muros. Aí, podemos relembrar memórias de Peroguarda. Confina pelo poente com Ferreira do Alentejo, pelo Norte com Alfundão e pelo nascente com Faro do Alentejo e Cuba, pelo sul com Beringel e Trigaches.
Em pleno coração da aldeia, a igreja Paroquial de Santa Margarida, templo simples mas bastante interessante, e à volta dela, as "Casas de Santa Margarida", conforme Lenda, que vos irei contar...

Conta-se que foi Pero da Guarda quem fundou esta povoação, construindo algumas casas junto de uma oliveira, na parte média do outeiro onde a mesma se edificava, casa a que chamou " Casas de Santa Margarida". Pero da Guarda foi atacado, de noite, por um "lobo" que se ocultara no tronco carcomido de uma oliveira denominada "cascarra" e o feriu mortalmente, escrevendo antes de morrer, o seguinte:


"Fiz Peroguarda e Alfundão
Todos vivam como eu vivi
e ninguém morra como eu morri"
 


Existe nesta aldeia de Peroguarda uma rua denominada "Rua do Lobo", por onde a lenda diz ter fugido o lobo que atacou Pero da Guarda, e até há poucos anos, existiu a oliveira de enormes dimensões, onde dizem, o lobo se ocultara.
Nas chamadas de "Casas de Santa Margarida" existiu numa ombreira da porta, uma lápide funerária romana, cuja inscrição se suponha estar relacionada com a fundação da localidade.
Esta lápide encontra-se actualmente no Museu Regional de Beja.


A 7 quilómetros de Ferreira do Alentejo, a freguesia de Peroguarda situa-se numa das mais importante regiões cerealíferas do país. Peroguarda é a aldeia típica alentejana em toda a sua dimensão.
Situada no extremo oriental do concelho de Ferreira do Alentejo, e no concelho de Beja, o seu povoamento é antiquíssimo. Têm aparecido no decorrer de várias escavações arquelógicas muitos vestígios de civilizações antigas: luso-romanas, visigóticas, árabes.

Peroguarda, classificada a aldeia mais portuguesa do Baixo Alentejo encanta com o seu branco e singelo casario que contrasta com o verdejante trigo ondulante e a sua igreja de Santa Margarida que ainda apresenta traços quinhentistas.



Nesta freguesia está sepultado o grande etnomusicólogo, Michael Giacometti, que se enamorou pelo seu misterioso cante alentejano, tradição local de relevante valor cultural.





Festas e Usanças em 1940


O Alentejo é um manancial de costumes curiosos.
São conhecidas e praticadas em todas as povoações do Alentejo, as Festas anuais em honra dos respectivos oragos, e outras usanças que a seguir mencionamos:


1º - Festa anual em honra da Padroeira de Peroguarda (Santa Margarida): - Realiza-se no mês de Agosto, quando já terminados os trabalhos das ceifas, não só por este motivo mas também porque os donativos, angariados a partir de três ou quatro meses antes da festa, são mais abundantes quando o trabalhador começa as árduas mas lucrativas tarefas das ceifas em que chega a atingir 25$00 e 30$00 diários – (salários nunca igualados em qualquer outro serviço) – e ainda porque o trabalhador “consertado ao ano”(os contratos são sempre feitos de Santa Maria a Santa Maria – 15 de Agosto – e nesse mesmo dia se recebem as soldadas anuais, constituídas por trigo ensacado ou em semeadura) e em iguais circunstâncias o proprietário que tem acabado de recolher a sua seara, da qual, um, dois ou três alqueires são entregues aos “festeiros” para que promovam a sua venda, reservando o dinheiro para as despesas que nunca faltam.
Os festeiros angariam donativos percorrendo as ruas da povoação, e muitas vezes as dos povoados vizinhos, em comissões de três ou quatro, um dos quais leva pendente da mão uma estampa que representa Santa Margarida, enfeitada com várias fitas: “uma esmolinha para a Festa de Santa Margarida”; sem a imagem da Santa, nada feito. O portador desta veste opa encarnada; os outros levam foguetes para atirar ao ar como sinal de terem começado o peditório e quando alguma esmola mais avultada lhes vai cair no saco do trigo ou da bolsa do dinheiro. Em geral, um alqueire de trigo ou 20$00 merece o “foguete da esmola”, que também é agradecida com as rituais palavras: “a Santinha lhe agradece a esmola”. O peditório é feito todos os domingos e dias santos e, na última semana que precede a festa, quase todos os dias.
As raparigas da aldeia, à porfia, primam por oferecer para a quermesse uma “prenda” que mais seja cobiçada e disputada depois entre o seu rapaz e algum rival.As almofadas, bordados e outros objectos de adorno doméstico, trabalhados por mãos habilidosas, enchem sempre as bancadas da barraca da quermesse. Esta realiza-se, durante as duas primeiras noites de festa, no largo em frente à igreja, transformado em arraial, onde a Filarmónica se faz ouvir em prolongado concerto.
Nestes dias de festa toda a gente – pobres, ricos e remediados – veste o seu fatinho novo. São dias de alegria e de verdadeira festa do povo!
Os campos dormem, por uns bons dois meses, o seu sono reparador e fecundante … e o rural – seu batalhador intrépido – parece querer dormir também, embriagado num sonho todo de amor, longe das lides extenuantes das ceifas que terminaram, parecendo-lhe ouvir o ensurdecedor ruído da máquina debulhadora que, depois de tragar moios do precioso cereal, repousa já no casão por mais um ano.
Estamos entretanto em dia de festa! Dela vamos tratar. Primeiramente a parte religiosa, depois a profana:
1 – A parte religiosa consta da Missa cantada, com Primeira Comunhão de crianças que, durante ela, cantam hinos religiosos. Depois da Missa cantada que termina entre a uma e as duas da tarde, o estômago já aceita, de bom grado, o suculento almoço que neste dia é melhorado não só por ser “dia de festa” mas também porque nele sempre se espera a visita de pessoa de família ou amigo que compartilha da alegria da Aldeia em festa. Cerca das três horas da tarde, começa o Sermão ouvido com religioso silêncio, terminando pela proclamação e como que investidura dos novos festeiros, aqueles a quem cumbe organizar a festa do ano seguinte.Começa então a organizar-se luzido cortejo:
À frente “O Guião das almas”, depois as cruzes, as lanternas, as imagens a sorrirem nos andores, os anjinhos com suas cúmplices vestes e flores, o palio e todo o povo, uns a chorar de comovida alegria, outros entoando hinos de louvor a Deus, vão percorrendo, mansamente, as ruas da povoação, todas festivamente engalanadas, o chão coberto de verdura, as janelas com colgaduras – são as tradicionais, as grandes procissões de Peroguarda! Como é encantadora e digna do nosso respeito, a fé deste povo! Como nos enche o coração, a alegria de compartilhar com ele essa mesma fé, de sentir nele toda a grandeza da sua cumplicidade e ingénua candura!...
Nestas procissões magnas são conduzidos todos os andores, em número de oito, aos ombros da fina rapaziada da Aldeia. Outros pegam no palio, sob o qual o prior conduz o Santíssimo Sacramento. Mesmo com o advento da Republica, em Peroguarda não deixaram de fazer procissões! Estas fazem-se geralmente, duas vezes por ano – pela Festa Anual e pela Páscoa (Procissão da Ressureição). A procissão já percorreu as principais ruas da Aldeia, vem Rua do Lobo acima… está a entrar na igreja.
Vai seguir-se a Exposição do Santíssimo em rica e artística custódia de prata e ouro. Ouvem-se já o “Salutaris Hóstia”, algumas preces pelas necessidades espirituais e temporais da freguesia, o “Tantum Ergo”…O padre sobe ao altar, dá a Bênção, e já ecoam no ar as harmoniosas notas do “Queremos Deus” ou da "Salve Rainha Nobre Padroeira”, quando o povo se retira em ordenada debandada.

Alentejo cem por cento – Prof. Joaquim Roque
(Costumes, Tradições, Etnografia e Folclore Regionais). 1940

Prof. Joaquim Roque, Peroguarda - Rezas e Benzeduras



PEROGUARDA (casa Prof. Joquim Roque)
Joaquim Baptista Roque
Nasceu a 26 de Janeiro de 1913, em Peroguarda, concelho de Ferreira do Alentejo
Faleceu a 2 de dezembro de 1995, em Lisboa




Alentejo Cem por Cento
Subsídios para o estudo dos Costumes, Tradições, Etnografia e Folclore Regionais
1ª Edição, Beja, 1940
2ª Edição, Ferreira do Alentejo, 1990
Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo
195 páginas







Rezas e Benzeduras Populares (Etnografia Alentejana)
1ª Edição, Beja, 1946
Minerva Comercial
Carlos Marques & Cª. L.da - BEJA
117 páginas


Rezas e Benzeduras Populares


À conversa no Largo da Igreja, no coração da aldeia alentejana de Peroguarda, era impossível não se falar do Professor Joaquim Roque, filho dilecto da terra, saudosamente recordado e que deu lugar a toponímia no largo em que viveu.
A casa onde habitou, de piso térreo bem ao estilo alentejano, forma ângulo no largo hoje designado Largo Professor Joaquim Roque, donde nasce a Rua Michel Marie Giacometti, figura de destaque nas recolhas etnográficas do Portugal profundo e que muito conviveu com o Professor Joaquim Roque.
Voltando à conversa, Peroguarda mantém no seu coração a mágoa do espólio do Professor estar a ser cuidado pelo Município de Portel e não pelo de Ferreira de onde Peroguarda é Freguesia.


“Rezas e benzeduras Populares”, obra datada de 1946, foi um dos trabalhos mais emblemáticos do professor Joaquim Roque, e que mereceu muitas referências na época, quer em Portugal quer no Brasil.
Essa obra de recolha popular encontra-se na memória de Peroguarda e na da cultura brasileira, pois na portuguesa parece ter caído no esquecimento.


Oração contra a espinhela caída
Espinhela caída
Portas ao mar
Arcas, espinhelas
Em teu lugar
Assim como Cristo
Senhor nosso, andou
Pelo mundo, arcas
Espinhelas levantou
Espinhela caída
Portas para o mar…
Arcas, espinhela
Em teu lugar…
Assim como Jesus Cristo
Pelo mundo andou
Arcas, espinhela
Levantou...”


Numa obra interessantíssima do professor Joaquim Roque "Benzedura de olhados, fitos e fitados", pode ler-se : "Os olhados - segundo se crê - atacam com preferência e de preferência, as criancinhas de tenra idade... e logo solícitas as mãezinhas, para as livrarem de tão terrível moléstia, que em poucos dias lhes pode levar, correm a benzê-las contra os maus olhados, fitos e fitados, olhares de inveja, de lua etc.
Como de costume, verifica-se primeiramente a existência da doença deitando alguns pingos de azeite num pires com água, sobre o qual se faz o sinal da cruz, ao mesmo tempo que rezam o credo (credo em cruz). Se o azeite desaparecer, diluindo-se completamente na água, a criança ou adulto, sofre de olhado.


Ensalmo para tratamento do mau olhado.

Eu te benzo Fulano
de lua e d’olhado
de fito e fitado...
a lua, aqui’ passou
a cor de Fulano levou
e a del’aqui deixou
Quando aqui tornar a passar
A cor de Fulano deixará
e a dela levará...
Jesus é verbo
Verb'é Deus
S’é olhado
Benza-te Deus!
dois olhos t’olharam mal
três t’hão de olhar bem;
que é Deus Pai, Deus Filho,
Deus Espírito Santo Amém.
Fulano, se te dói a cabeça,
Valha-te Senhora Santa Teresa,
se te doem os olhos
Valha-te Senhora Santa Luzia!
se te dói o peito,
valha-te o Senhor dos Aflitos
se te doem os braços,
valha-te o Senhor Jesus dos Passos!
se te dói a cintura,
valha-te a Senhora Virgem Pura!
se te dói a barriga,
valha-te a Senhora Santa Margarida!
se te doem as pernas
valha-te o Senhor Santo Amora!
se te dói o corpo todo
valha-te o Senhor Todo Poderoso!
em louvor de Deus e da Virgem Maria,
Padre Nosso e Ave Maria.


Adeus mau olhado e sua má olhadura que te somes nas profundas do Inferno mal esta benzedura é pronunciada.



O povo acredita no poder mágico dos olhos, e crê piamente nesse fluido estranho.
Não é difícil encontrar-se frases bem características, que definem bem essa força invisível. "Quem tem olho é rei"! E assim é de fato. O homem, que tem grande visão das coisas domina o seu meio e comanda o seu semelhante. Fulano tem "olho vivo", sicrano tem "olho bem aberto".


Benzedura recolhida pelo professor Joaquim Roque:


Jesus é verbo,
Verbo é Deus,
Fulano tem um quebranto,
Benza-o Deus.
Deus te benza, e benza-te Deus:
De lua e d’ar e d’olhadela;
De dores nervosas e de sol no miolo;
De lua nas tripas e d’azar;
E de mal d’inveja e de tod’o mal
Dois olhos te viram mal.
E três te viram bem;
E Deus Pai, Deus Filho,
E Deus Espírito Santo Amém
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.


A oração pode ser rezada três vezes fazendo cruzes sobre a água. Verificado o mal benze-se a criança rezando a oração nove vezes: Três enquanto se fazem cruzes sobre a cabeça, outras três sobre o peito e as restantes sobre as costas.

Lendas de Peroguarda




Lenda nº 1 - Santa Margarida Padroeira de Peroguarda
Diz o povo que era filha de um rei turco e que, por inspiração divina, se fez cristã dedicando-se inteiramente ao serviço da Sagrada Família e indo lavar ao rio Jordão os cuiros do Menino Jesus! Foi Nossa Senhora quem, nesse mesmo rio, a baptizou e lhe deu o nome de Margarida; o pai de Santa Margarida, ao saber que sua filha tinha uma religião diferente da sua e que ela não queria casar com um príncipe turco, matou-a, fazendo-a rolar sobre uma "roda de navalhas" e atirando-a em seguida ao rio Jordão. Nossa Senhora vendo-a assim ferida e sem vida, lavou Santa Margarida na água do rio, após o que a santa ficou completamente curada. Nossa Senhora acompanhou-a então a casa do pai que, cheio de espanto e admiração pelo sucedido, se converteu também ao Cristianismo.Foi esse o primeiro milagre de Santa Margarida. 

Lenda nº 2 - Edificação da igreja de Santa Margarida em Peroguarda
No altar-mor da Igreja desta freguesia está a imagem da Padroeira, Santa Margarida, contando-se, mais ou menos nos tempos que se seguem, que foi a Santa que pediu que ali lhe edificassem a sua Igreja. Estando as Aldeias de Peroguarda e Alfundão à distancia de 3 Km, uma da outra e sem Igreja em qualquer delas, resolveram os habitantes de uma e outra freguesia mandar contruir um templo que servisse as duas povoações, a meia distância de ambas; tal resolução começara a ser posta em prática e, a breve trecho, verifica-se o estranho facto de aparecer desmanchado, em cada dia, o trabalho efectuado no dia anterior. É então que Santa Margarida aparece sobre um zambujeiro, na parte mais alta do pequeno outeiro onde se edificara a povoação, pedindo que construíssem um Igreja da sua invocação, naquele local, ficando o altar-mór com o tronco sobre o zambujeiro. O certo é que aquele arbusto ainda se podia ver até há relativamente pouco tempo, como disso são testemunhas oculares muitos habitantes da freguesia, dos quais recolhemos esta interessante narrativa.

Lenda nº 3 - Milagres de Santa Margarida  
Santa Margarida é muito querida dos habitantes de Peroguarda, contando-se muitos factos alusivos a milagres por ela feitos em auxílio dos seus devotos estando afixados nas mesmas "capelinhas", à direita do altar mor, alguns quadros antigos, com os quais se rememoram tais milagres.
Lenda nº 4 - O Sino que venceu a batalha
No tempo das antigas guerras (talvez as da Independência, de que o Alentejo foi teatro…) quando nos arredores de Peroguarda se travavam violentos combates em que todos os homens válidos da povoação tomavam parte, tendo as mulheres, velhos e crianças abandonando a aldeia – sucedeu que uma pobre velhota, doente e sem forças para fugir, se arrastou até à igreja, invocando auxílio de Santa Margarida para que lhe valesse em tão doloroso quão aflitiva situação. Santa Margarida veio mais uma vez em auxílio do povo seu protegido. Esta interessante e singela “História dos tempos antigos” foi-nos contada por uma velhinha centenária que ainda hoje vive em Peroguarda e a recorda aos seus bisnetos.
Lenda nº 5 - Fundação da aldeia de Peroguarda
Conta-se que foi Pero da Guarda quem fundou esta povoação construindo algumas casas junto de uma oliveira, na parte média do outeiro onde a mesma se encontra edificada, casas a que chamou “Casas de Santa Margarida”.
Pero da Guarda foi atacado, de noite, por um lobo que se ocultara no tronco carcomido de uma oliveira denominada “cascarra” e o feriu mortalmente, escrevendo, antes de morrer, o seguinte: 

 
“Fiz Peroguarda e Alfundão
Todos vivam como eu vivi
E ninguém morra como eu morri”

Existe nesta aldeia de Peroguarda uma rua denominada “Rua do Lobo” por onde a lenda diz ter fugido o lobo que atacou Pero da Guarda, e até há poucos anos, existiu a oliveira de enormes dimensões, onde o lobo se ocultara.
As chamadas “Casas de Santa Margarida” ainda existia numa ombreira da porta das ditas casas, uma lápide funerária romana, cuja inscrição se suponha estar relacionada com a fundação da localidade.
No Diário do Alentejo de 14/11/1939, publica o saudoso amigo e ilustre prof. Abel Vieira, um artigo sobre a lápide de Peroguarda. Mais tarde publicou ainda um mais desenvolvido e criterioso trabalho sobre a mesma lápide – “Arquivo de Beja”, vol. II pags. 260, 261 e 262, para onde remetemos o leitor interessado.
Esta lápide encontra-se actualmente no Museu Regional de Beja.
Lenda nº 6 – Uma moura encantada
Assim reza a singela narrativa: um dos habitantes desta aldeia quando se dirigia para a ribeira que corre junto da povoação, ao aproximar-se da já citada “Fonte Faústa” cuja água corre para a dita ribeira, viu-se a lavar na água da fonte uma menina muito bonita, de cabelos dourados que a chamou e lhe deu uma “manchinha” (mão cheinha) de figos, desaparecendo em seguida. A contemplada, que era uma simpática velhinha, radiante por tão feliz encontro, voltou à povoação e qual não foi o seu espanto quando, ao pretender mostrar os figos que aceitara, encontrou-os transformados em “cruzados de oiro” … imediatamente voltou ao local da aparição acompanhada de várias pessoas e maior foi ainda a admiração e pavor de todos quando, em vez de encantada menina de que lhe falara a velhinha, encontraram uma enorme cobra, dentro da fonte, a cantar a sua triste sina!...A menina, que era a moura, transformou-se em cobra e ainda hoje, embora oculta no meio recôndito da fonte, em determinados dias do mês, a moura continua cantando seus amargos queixumes de prisioneira de gentes cristãs.
“Os sinos tocam misteriosamente a rebate; o sol esconde-se; no céu cruzam-se raios; ouve-se o ribombar do trovão; reina a confusão e com ela a retirada das forças atacantes que não mais incomodaram os habitantes da pacata e risonha aldeia branca!”
Alentejo cem por cento - Prof. Joaquim Roque

Regresso a Peroguarda




CONTO



Sei que vou chegar… e não vou conhecer ninguém!
Pela janela do comboio, vejo correr azinheiras e montados, que vão alternando com as planícies da lonjura.
Lá longe … no fundo do tempo que se me escapou por entre os dedos, parece-me ouvir ainda a voz da minha mãe a chamar-me p’rá ceia.Vou desfiando o meu destino de emigrante, igualzinho ao de milhares de compatriotas que correram atrás da esperança para agarrar um sonho!
Volto, como todos voltam… p’ra morrer no meu país!
Ao menos isso, temos o direito a conquistar!Amesterdão, Roterdão, Eindhoven… lugares emprestados à minha vida.
E sempre o meu Alentejo a minar-me a alma!E o cante dos ganhões a povoarem-me o coração morto de saudade… “O Alentejo é que éi o celêro da nação…”Um dia, em Antuérpia, quando acidentalmente passava numa rua junto ao cais… ouvi cantar “À Alentejana”. E entrei no modesto “barzinho” donde partia a música.
Do outro lado do balcão, o proprietário, alentejano dos quatro costados, emigrado na Bélgica ia p’ra quinze anos, confidenciou-me com os olhos marejados de lágrimas, que todos os dias punha na pequena aparelhagem sonora… uma “cassete” com cantares alentejanos, “sabe senhor… é p’ra ver se não morro de saudade”!
Eu, como ele, longe dos barros vermelhos que nos viram crescer… percebi o seu sentir igual ao meu!Recordámos os campos de trigo com papoilas encarnadas... e chorámos juntos!
É sempre assim, o destino do emigrante alentejano!
Colhe beterraba na Holanda, fingindo que ceifa trigo no Alentejo!
E cá vou eu, uma vintena de anos depois de ter partido… de regresso ao solo amado.
Naturalmente que tudo está diferente!
A velha casa onde nasci, fechada há um ror de anos, estará de certo, com a fachada decadente. Em vez da cal de outrora, há-de estar abraçada de musgo e humidade.
E o quintal…com a romanzeira, que eu, irrequieto, trepava, nas minhas brincadeiras de menino, julgando escalar castelos, onde ia vencer dragões vomitando fogo, será um imenso matagal, morto de saudade das mãos do meu pai, que lhe podava as árvores de fruto, e lhe plantava nos canteiros cuidados, as “roseiras chá” que a minha mão adorava.
Mas isso… foi ”há mil anos”, quando eu tinha a alma branca dos meninos felizes!
Meus pais, repousam há muito, no seu sono eterno... no campo santo da vila; e eu, aqui estou de volta, com o meu estatuto de emigrante, supostamente bem sucedido, na procura de um encontro com as minhas raízes, e de um suave repouso para os olhos cansados de chorar anos a fio…a saudade da planície.
Balanceio a minha solidão ao ritmo do “pouca terra, pouca terra” , desde comboio retorno!
Já descortino ao longe, os contornos ainda pouco nítidos dos vermelhos telhados das casas da vila.
Salta-me o coração do peito, no anseio de pisar em breve o solo onde cresci.
E como o sonho também se agarra, quando o anseio de ser feliz já não nos cabe no tamanho do coração, cá vou eu, preso nas asas de um sonho do tamanho do mundo, voando para os braços do meu Alentejo, como as andorinhas que em cada Primavera buscam de novo o seu ninho!Hei-de abraçar todos os companheiros de outrora… se ainda me reconhecerem!Hei-de apanhar rãs no charco…como fazia em criança!
Hei-de banhar-me nas ribeiras…onde nadavam as “pardelhas”!
Hei-de embrenhar-me nos verdes trigais…e encher as mãos de papoilas!
Hei-de comer o pão de trigo…para sentir que estou em casa!
Hei-de cantar com os “ganhões”, dançar nos “mastros” ao som de uma qualquer concertina, e perfumar-me de rosmaninho e alecrim…em noites de S. João!
Hei-de beber a água de todas as fontes cristalinas do lugar!
Hei-de mudar o meu destino…e nunca mais emigrar!
Hei-de deitar-me de costas no restolho, olhar o meu céu alentejano…e gritar com todas as minhas forças aos pássaros cinzentos…VOLTEI!

Orlando Fernandes
JORNAL DE FERREIRA - Agosto 2006

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