Peroguarda, classificada a aldeia mais portuguesa do Baixo Alentejo, possui “riquezas inigualáveis”, dizem os seus habitantes. Uma das suas riquezas é a Igreja de Santa Margarida que apresenta traços quinhentistas.
Sobre as Festas Populares de que mais gosta, Virgínia esclarece:
-“Para mim a Procissão da Páscoa é a festa mais sentida. E essa procissão eu já a via ao colo da minha avó. É muito bonita. Os homens vão cantando as Aleluias, que são únicas no país. É muito bonito!” E quando Virgínia termina de dizer esta última frase começa a cantar, numa voz lenta, doce e triste: “Ressuscita o nosso Deus… Aleluia…” Depois compõe-se da emoção e retoma:
“Também gosto muita da festa de Santa Margarida. Antes a festa fazia-se em Outubro, que era a altura em que os ceareiros e os lavradores tinham dinheiro porque vendiam o trigo às fábricas e tinham dinheiro para pagar o fogo-de-artifício. Agora, a festa em honra da Santa Margarida é em Agosto porque é tempo de férias e é quando regressam muitas pessoas à aldeia. Mas há uns anos que não se deita o fogo porque há 20 anos o fogo de artificio provocou um incêndio. Aqui na aldeia ainda se fazem os funerais como na Idade Média. Alguém leva a cruz e de lado vão com as lanternas. Alguém vai atrás com o corpo e leva a opa preta. Outro transporta a mesa onde depois se pousa o caixão. Agora, e como a população está mais envelhecida e os novos não estão, só se faz o funeral assim se houver jovens na família dispostos a carregar o corpo”.
Nesta pequena aldeia de nome Peroguarda, onde está sepultado o conhecido etnomusicólogo, Michel Giacometti, que se enamorou pelo misterioso cante alentejano.
Foi por causa desse enamoramento que, contrariando a tradição, o povo cantou na hora da despedida “Fomos amigos do Michel Giacometti. Cantámos para Giacometti no da do enterro dele, foi a pedido dele que o fizemos”. Virgínia canta emocionada:
Ai solidão!
Cá para mim quer sim, quer não...
Vem a morte e leva a gente...
Quem não há-de ter paixão!
Que paixão não há-de ter...
Ai solidão!
E sobre aquele dia tão pesaroso para os habitantes de Peroguarda que ao etnomusicólogo queriam bem foi um correr de lágrimas e de tristezas. A poetisa recorda: “Foi emocionante ver o Grupo Coral de Peroguarda a cantar e a chorar. Aqueles homens todos choravam, homens rudes do campo, enrugados, face curtida do sol”. Este casal , Virgínia e Agostinho, privou com o amigo a quem tratavam por Michel, sem grandes cerimónias. “Ele vinha sempre a nossa casa e à casa de um tio meu. Era um homem muito humano...
Para mim ele tinha uma alma grande como a planície, bonita como as papoilas e rica como o trio”, palavras gravadas na sepultura daquele conceituado amigo da terra.
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“Comecei a trabalhar no campo ainda menina e apaixonei-me pela aldeia e pelo campo porque esta aldeia é única. Esta terra é única em costumes e maneiras. As formas de lidar do povo, a sua entrega… são únicas. Havia um tanque perto de nossa casa e eu ia lá lavar a roupa, agora vou, mas menos vezes. Antes não havia água canalizada.
Há uns anos que tenho máquina de lavar roupa e lavo em casa. Antes, ia buscar água ao poço… As coisas eram diferentes. Trabalhei no campo até aos 50 anos.
A festejar o 25 de Abril parti-me toda, dei uma grande queda e deixei de conseguir trabalhar tanto no campo como fazia. Sempre trabalhei no campo, embora depois de ter tido o acidente tive de arranjar outro ganha-pão. Arranjei trabalho em frente a casa. Reformei-me na idade normal, com 65 anos”, conta Virgínia.
E sobre a terra que acredita ser a mais linda de todas diz:
“Vivi sempre em Peroguarda. Não conseguia viver noutro lugar. Quando ia ao concelho, que é aqui perto, não gostava, já não era igual, não é a mesma coisa. Peroguarda é uma aldeia com casas baixinhas. Há poucas casas que tenham primeiro andar. As ruas da aldeia são calcetadas com calçada antiga. As casas são muito branquinhas. Levantando o tempo as pessoas vêm caiar a frente das casas. À volta da aldeia, nas terras circundantes, há girassóis, boas cearas, alguns olivais. Gosto muito de estar rodeada pela natureza. Quando o tempo traz a geada é um sofrimento muito grande estar no campo, mas quando está tempo ameno, um dia quente, quando há sol, não há nada melhor do que estar no campo!”.
No campo não aprenderam apenas a lavoura, nem aprenderam apenas a separar “o trigo do joio”, aprenderam o cante, tão característico da alma alentejana.
“O campo era uma escola de canto, não era na aldeia que se aprendia. O sol-pôr era lindo! A aldeia ficava cheia de vida. O rancho dos almocreves, o rancho de camponeses num bulício de sons e cores, consagrando aos deuses”, diz Virgínia e Agostinho retoma: “Os melhores são os que aprenderam a cantar no campo. Os bons alentejanos são os que aprenderam a cantar no campo. Os camponeses vinham do campo a cantar”. Enlevada, as palavras tomam de novo conta dos seus lábios e, Virgínia canta: “O camponês sempre canta quando o cansaço fustiga...”; “Tudo era motivo para cantar...
Só não se cantava à volta da pessoa que morria”.
Virgínia Maria Dias e Agostinho Brissos Pereira
Viver numa aldeia no séc. XXI - Jornalista Rita Campos Fão
TVI - Fevereiro 2009