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Peroguarda - Passado e Presente
****** PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA... Muita embrulhada Em dignidade A velha comadre Exclama agastada: Não tem vergonha esta mocidade! Eles de cabelo comprido " à gandaia" Elas em curtinha saia Num doido à vontade No meu tempo ao invés Ai que graça a minha Eles cabelo à escovinha Nós saias quase aos pés E vê-los dançar?... Mas que confusão! Ora pregados no chão Ora aos saltos para o ar. Nós num abraço "A certa distância" Com brio e elegância Marcávamos o compasso. Então no namoro Dão beijos na boca Eu pasmo de louca Com o desaforo. Quando eu namorava Acendia-se a luz E juro por Jesus Ele não me tocava! Nisto: Alguém brada do lado de fora Comadre, ó comadre - Quem será o alarve Esta agora! Quem me está a chamar? Quem será o atrevido? Sou eu, tempo antigo Contigo quero falar. Linguareira astuta Acaso estás esquecida Com saia comprida Sonhava-la curta? A vossa atitude No baile, no namoro Era mais um decoro Do que uma virtude. E tantas vezes Não negues que eu sei Nasciam de seis E tinham nove meses. Do seu pedestal A velha comadre Ouvindo a verdade Sentiu-se tão mal. Sem ter que vesti-la Seu manto de arminho Murmurou baixinho Ainda não havia a pílula... De todos só eu sabia Porque de repente o vento se fez doce. Foi para acariciar a minha foice que de saudade gemia. Saudade das manhãs acesas Onde em nuvens de cansaço, ele se erguia Até altos castelos, eram de fantasia Que importava? Se neles era princesa. E no trono em que se sentava Havia uma varinha de condão Que fazia quanto lhe mandava. E as espigas eram espadas de oiro Que a ceifeira tomava em sua mão Vencendo dum só golpe o dia moiro. Virginia Maria Dias - Poetas de Peroguarda O PRANTO DO TRIGAL * TEMPOS QUE EU VIVI
No céu apagavam-se as estrelas Guiadas pela mão do almocreve. Lá iam para o trabalho as parelhas. Que contraste! Entre a nota alegre das guisadas E a moda dolente que o almocreve cantava Da ribeira vinha um cheiro a mentraste E as falas de alguém que já lavava. Cruzam-se os ranchos de camponesas. Gritam umas às outras: Bom dia! D'entre o lenço espreita-lhe a beleza Serena, rosada, sádia. Peroguarda, densamente povoada, Nem parecia pequena. Pelas ruas corria o bulício, o alarido De bandos de criançada, Jovens e velhos em grupos pelas empenas Os jovens para verem passar a sua amada Os velhos na reza do tempo já vivido. As portas abertas de par-em-par Davam um ar de alegria e franqueza Um dizer: Vem, vem partilhar O pão da minha mesa. Pão sempre escasso Que só a miséria abundava Pão num fraternal abraço Mesmo sendo escasso se dava. Enquanto se aquecem ao Sol Donas de casa costuram e fazem meia Falam de si, e porque não ir no rol Também um pouco de vida alheia? Passam rebanhos com alegre chocalheira Tocam flauta os moços pastores; À tardinha debaixo de uma velha oliveira Reúnem-se para a conversa os lavradores. Seria o vento que contava? É que o povo hábil mestre em sátiras Trocista logo a apelidava De: oliveira das mentiras. Foi nesta vivência singela Que nasci e me criei para a vida Sofri sim. Mas amei-a! E de vivê-la, Sempre me senti engrandecida. Dela sinto uma profunda saudade! E se vozes dizem que estou errada Oponho-lhe que nesse tempo de frugal simplicidade A família não vivia separada. Divertíamo-nos com o nosso cantar Não havia rádio nem televisão Mas também não ouvíamos falar De droga, sida, emigração.
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Canta o semeador
Enquanto semeia o trigo
Sua cantiga é de dor:
Adeus Michel meu amigo.
Abre-se a terra ao encanto
Daquela cantiga triste
E escreve em sulcos de pranto
Adeus Michel que partiste.
Tece um ramo a camponesa
De um adeus que traz consigo
Murmura como quem reza
Adeus Michel meu amigo.
Passarinho sempre alegre
Porque cantas hoje tão triste?
Choro um adeus que se despede
Adeus Michel que partiste.
Virgínia Maria Dias -Poetas de Peroguarda
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Michael, mil vezes obrigado
Quiseste a tua morada
Neste canto ignorado
Aldeia de Peroguarda
Conhecemo-nos! Logo ficámos amigos
Unidos por elos de afinidade
O mesmo anseio de Liberdade
O mesmo amor pelos oprimidos
O que sentíamos trancendia os partidos
Por siglas não podia ser rotulado
Era algo tão puro e tão sagrado
Como um sorriso confiante de criança
Por esse sorriso de esperança
Michael, mil vezes obrigado
Quantas vezes eu te vi comovido
Com a fome que então havia
Ai, jamais o pão faltaria
Fosses tu campo de trigo
Dos teus ideais meu amigo
Sabia a gente de Peroguarda
Por isso te oferecia entusiasmada
Seu cante em toda a plenitude
Entre essa gente rude
Quiseste a tua morada
Porquê? Perguntam vozes admiradas.
Porquê este teu pedido
Querer neste cantinho esquecido
A tua última morada
O que há em Peroguarda
Para ti de tão sagrado?
Queres tu ser embalado
Por esse cante tão triste
Que um dia descobriste
Neste recanto ignorado
Canto feito de papoilas e trigais
Macerados em jeiras de dor.
Logo tu musicólogo de valor
Soubeste decifrar seus tristes ais,
Homem mais culto que os demais
Neles viste a tua dor retratada.
Os grandes desta pátria tão amada
Não amam quem possui saber ou arte
Soube entender-te, soube amar-te
A aldeia de Peroguarda.
Virgínia Maria Dias - Poetas de Peroguarda