21.10.08

Memórias de Peroguarda


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Peroguarda


Na planície quente e trigueira
De pelo o sol ser beijada
Mora uma ceifeira
Por todos amada.

Não é morena!
Deus fê-la branquinha
É muito pequena
Mas tão bonitinha.

Fá-la mais catita
A sua singeleza
Só veste de chita
Bem à Portuguesa

No riso, brinca-lhe uma fonte
Nos cabelos um raio de sol
Seu cantar rasga o horizonte
Belo como o rouxinol.

Beija o infinito
Ri à madrugada
Seu nome é bonito
Ela é ... Peroguarda

Virgínia Maria Dias - Poetas de Peroguarda

20.10.08

Crónicas Contadas I



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- Haviam duas mercearias no Largo da Praça aonde se fazia a matança dos porcos...

- Quem ajudava a matar o porco eram o carpinteiro de carros, Mestre Maia e o Sapateiro Zé Castro...e como prémio tinham direito às orelhas e ao rabo do porco.

- Encomendava-se a carne para a moleja... faziam-se os torresmos do rissol...

- O toucinho era esfregado e conservado em camadas de sal...

- As linguiças da Inácia "Bataquinha" diziam... "come-me, come-me" ...

Chico d'Aurora é do tempo em que em Peroguarda se matava o porco na Praça. Agora, passeia apoiado ao seu cajado, devagarinho, pela Rua da Esperança, entre a casa e o Café Central.
- Sabes, diz-me ele com o olhar brilhante, antigamente a vida era mais simples e mais alegre. Quando chegava Sexta-Feira , a "Família" juntava-se ali na Praça e cada um contava as suas estórias. Na venda da Ti Inácia "Pataquinha" ou na da Ti Alice, todos ajudavam como podiam aqueles que viviam da matança do porco...
E, a caminho do Café Central começou a desenrolar a conversa...


A Matança do Porco

Um portão entreaberto deixa-nos ver um dos pátios. Estão todos a postos a banca de castanho, tosca, de pés divergentes, “a tripeça”, os largos alguidares vidrados de louça do Redondo, os feixes de tojo, as quartinhas com água. O animal preso na perna e tocado pelo moço da casa, entrou desconfiado. Os seus grunhidos, soltos de quando em quando, traduzem a interrogação do seu olhar, atirado de revés a quem passa. Há azáfama de pessoal. Toda a casa parece despertado por aquele acto… Quando os magarefes entram, na cinta a aljava de couro sujo, onde estão as facas afiadas, o rumor aumenta e o animal, sentindo o perigo, agita-se nervoso, olha para todos os cantos a ver se descobre a saída que o liberte enquanto os homens se movem na execução dos papéis antes distribuídos: Trazer as feixas, conduzir os barranhões, dar a água. E a função toma calor, mais vida, visto que “a família”, toda vem do interior para assistir.Os homens tomam então o animal, seguram-no, atam-lhe o focinho, não vá mordê-los ou atroar tudo com a gritaria. Deitam-no à força na banca estreita e, tendo-o assovacado e posto sem defesa, fazem que jorre, em ondas escaldantes, o sangue ardente, que em breve, enquanto o mexem com uma larga colher de pau, este pinta de rubro o alguidar de barro ou tacho de cobre.

Vibraram com agudeza estridente os primeiros gritos do animal. Foi um brado longo e aflitivo. Seguiram-se outros. Mas logo vieram os roucos desalentados do que não pode lutar, seguindo-se o afrontamento, a exaustação, a morte. Um grunhido doloroso e eis o último arranco da pobre vítima, imolada às necessidades da vida, às exigências materiais da humanidade, que ainda não quis compreender, para os aplicar, os princípios naturistas que a levariam a pôr de lado estes sangrentos e largos morticínios.

O suíno morto vai depois à musga. É um rápido acender de feixes de azinho, piorno ou tojo. O pelo dourado do animal em breve desaparece. Numa volta de mão, com desembaraço, as facas põem-lhe a descoberto os couros, brancos como faces barbeadas. Está postado no chão, de borco, o focinho roçando as lages, como se caminhasse de rastos sobre o ventre, quando o musgam na cabeça e nos lombos. Depois … é levado à fogueira, em peso, para lhe queimarem o pelo que resta.Em pouco, o primeiro acto passou. Vem a seguir a lavagem. Os cuidados prestados nesta última operação são de apreciar.Carregar o porco para o chambaril, prendê-lo pelos jarretes, abrir-lhe o ventre, separar as banhas, deixá-lo a secar durante a noite, a escorrer-lhe o sangue para um assado, são os prelúdios da desmancha que se realiza no dia seguinte.