- Haviam duas mercearias no Largo da Praça aonde se fazia a matança dos porcos...
- Quem ajudava a matar o porco eram o carpinteiro de carros, Mestre Maia e o Sapateiro Zé Castro...e como prémio tinham direito às orelhas e ao rabo do porco.
- Encomendava-se a carne para a moleja... faziam-se os torresmos do rissol...
- O toucinho era esfregado e conservado em camadas de sal...
- As linguiças da Inácia "Bataquinha" diziam... "come-me, come-me" ...
Chico d'Aurora é do tempo em que em Peroguarda se matava o porco na Praça. Agora, passeia apoiado ao seu cajado, devagarinho, pela Rua da Esperança, entre a casa e o Café Central. - Sabes, diz-me ele com o olhar brilhante, antigamente a vida era mais simples e mais alegre. Quando chegava Sexta-Feira , a "Família" juntava-se ali na Praça e cada um contava as suas estórias. Na venda da Ti Inácia "Pataquinha" ou na da Ti Alice, todos ajudavam como podiam aqueles que viviam da matança do porco... E, a caminho do Café Central começou a desenrolar a conversa...
A Matança do Porco
Um portão entreaberto deixa-nos ver um dos pátios. Estão todos a postos a banca de castanho, tosca, de pés divergentes, “a tripeça”, os largos alguidares vidrados de louça do Redondo, os feixes de tojo, as quartinhas com água. O animal preso na perna e tocado pelo moço da casa, entrou desconfiado. Os seus grunhidos, soltos de quando em quando, traduzem a interrogação do seu olhar, atirado de revés a quem passa. Há azáfama de pessoal. Toda a casa parece despertado por aquele acto… Quando os magarefes entram, na cinta a aljava de couro sujo, onde estão as facas afiadas, o rumor aumenta e o animal, sentindo o perigo, agita-se nervoso, olha para todos os cantos a ver se descobre a saída que o liberte enquanto os homens se movem na execução dos papéis antes distribuídos: Trazer as feixas, conduzir os barranhões, dar a água. E a função toma calor, mais vida, visto que “a família”, toda vem do interior para assistir.Os homens tomam então o animal, seguram-no, atam-lhe o focinho, não vá mordê-los ou atroar tudo com a gritaria. Deitam-no à força na banca estreita e, tendo-o assovacado e posto sem defesa, fazem que jorre, em ondas escaldantes, o sangue ardente, que em breve, enquanto o mexem com uma larga colher de pau, este pinta de rubro o alguidar de barro ou tacho de cobre.
Vibraram com agudeza estridente os primeiros gritos do animal. Foi um brado longo e aflitivo. Seguiram-se outros. Mas logo vieram os roucos desalentados do que não pode lutar, seguindo-se o afrontamento, a exaustação, a morte. Um grunhido doloroso e eis o último arranco da pobre vítima, imolada às necessidades da vida, às exigências materiais da humanidade, que ainda não quis compreender, para os aplicar, os princípios naturistas que a levariam a pôr de lado estes sangrentos e largos morticínios.
O suíno morto vai depois à musga. É um rápido acender de feixes de azinho, piorno ou tojo. O pelo dourado do animal em breve desaparece. Numa volta de mão, com desembaraço, as facas põem-lhe a descoberto os couros, brancos como faces barbeadas. Está postado no chão, de borco, o focinho roçando as lages, como se caminhasse de rastos sobre o ventre, quando o musgam na cabeça e nos lombos. Depois … é levado à fogueira, em peso, para lhe queimarem o pelo que resta.Em pouco, o primeiro acto passou. Vem a seguir a lavagem. Os cuidados prestados nesta última operação são de apreciar.Carregar o porco para o chambaril, prendê-lo pelos jarretes, abrir-lhe o ventre, separar as banhas, deixá-lo a secar durante a noite, a escorrer-lhe o sangue para um assado, são os prelúdios da desmancha que se realiza no dia seguinte.
No dia fértil de gentes, arados, Foices e cantigas, Havia um cante derramado. Onde o cansaço toucado de espigas, Brincava, bailava, sonhava… À noite O cansaço e as gentes Dormiam contentes.
Presente I
À noite, Ainda adormece Num cante de moura encantada Que a aquece.
Mas na face branca O dia mirrado de espera Já não canta Desespera!
Presente II
Sem arados nem foices Despido de gentes O dia acontece Em tons de negro-escuro À noite, Abstracto adormece Fazendo amor com uma esperança Estéril de futuro.
Vírginia Maria Dias - Poetas de Peroguarda
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PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA...
Muita embrulhada
Em dignidade
A velha comadre
Exclama agastada:
Não tem vergonha esta mocidade!
Eles de cabelo comprido " à gandaia"
Elas em curtinha saia
Num doido à vontade
No meu tempo ao invés
Ai que graça a minha
Eles cabelo à escovinha
Nós saias quase aos pés
E vê-los dançar?...
Mas que confusão!
Ora pregados no chão
Ora aos saltos para o ar.
Nós num abraço
"A certa distância"
Com brio e elegância
Marcávamos o compasso.
Então no namoro
Dão beijos na boca
Eu pasmo de louca
Com o desaforo.
Quando eu namorava
Acendia-se a luz
E juro por Jesus
Ele não me tocava!
Nisto:
Alguém brada do lado de fora
Comadre, ó comadre
- Quem será o alarve
Esta agora!
Quem me está a chamar?
Quem será o atrevido?
Sou eu, tempo antigo
Contigo quero falar.
Linguareira astuta
Acaso estás esquecida
Com saia comprida
Sonhava-la curta?
A vossa atitude
No baile, no namoro
Era mais um decoro
Do que uma virtude.
E tantas vezes
Não negues que eu sei
Nasciam de seis
E tinham nove meses.
Do seu pedestal
A velha comadre
Ouvindo a verdade
Sentiu-se tão mal.
Sem ter que vesti-la
Seu manto de arminho
Murmurou baixinho
Ainda não havia a pílula...
De todos só eu sabia
Porque de repente o vento se fez doce.
Foi para acariciar a minha foice
que de saudade gemia.
Saudade das manhãs acesas
Onde em nuvens de cansaço, ele se erguia
Até altos castelos, eram de fantasia
Que importava? Se neles era princesa.
E no trono em que se sentava
Havia uma varinha de condão
Que fazia quanto lhe mandava.
E as espigas eram espadas de oiro
Que a ceifeira tomava em sua mão
Vencendo dum só golpe o dia moiro.
Virginia Maria Dias - Poetas de Peroguarda
O PRANTO DO TRIGAL
Veio do campo! Eu julguei que era o vento. Até que ouvi claramente. Era um soluço, um ai de sofrimento, De alguém que chorava perdidamente.
Perguntei entre curiosa e surpresa: Quem padece de tanto mal? Que chora assim de tristeza? Sou eu! Eu o trigal Bem hajas, tu que me lembras a camponesa.
Eu choro atormentado de saudade e solidão Aqueles que me cuidavam Aqueles que me alegravam Diz-me: Onde estão? Onde estão?
Onde estão os almocreves Valentes abnegados? Onde estão as parelhas? Onde estão os arados?
Onde está o semeador De mão ágil e fagueira? Que bem me deitava à terra! E chegada a primavera Onde se esconde a mondadeira?
Como ela era bonita Nos seus trajes enfeitados Mangueiras com laços de fita Avental e punhos bordados.
Se eu estava enfraquecido Aconchegava-me o pé De consolo enternecido Cheguei a chorar até.
E a minha gentil ceifeira Papoila, mulher, rosa brava Mimosa ainda que trigueira Como ela me enfeitiçava!
Na boca um riso, uma cantiga Por graça eu curvava a pragana Enleando-lhe uma espiga Nos seus canudos de cana.
Onde está o ceifeiro possante Desassombradamente ágil Ajudando discreto galante Uma ceifeira mais frágil.
Ao grito: Pessoal atem o pão! Ai! Como eu era feliz Mesmo tombado no chão Separado da raiz.
Que folga eu dormia, já releiro! Nem me incomodava a torreira Até que o almocreve e o moleiro Vinham buscar-me para a eira.
Vaidoso lá ia eu transportado Em artísticas carradas piramidais Para na eira ser alinhado Muito juntinho em frascais.
Avizinhava-se o fim! Mas sereno, eu não fraquejava Antes sentia fremente em mim Uma oração que exultava.
De fé, de alegria, jamais de tristeza. É que toda a minha vida Fora um carreiro de amor Onde até a própria dor Se transformava em cantiga. Essa gente camponesa Ai como me pulsava forte No âmago de cada espiga.
Gente de corpo inteiro! No seu todo não sei que chama Lembram-me o audaz guerreiro Que combatia a mourama.
Hoje é um engenho mecanizado Que me semeia sem ternura, à deriva E na primavera sou mondado Com química tóxica, nociva.
Criado numa imensidão Onde só o silêncio fala Ao meu berço de solidão Nem uma cantiga o embala.
Até que a máquina gigantesca, infernal Cai sem piedade sobre mim Ceifeira! Chamam àquele monstro sem alma E eu revoltado perco a calma Porque lhe chamam assim. Ceifeira! Como a camponesa gentil Ai, meu tormento desafiado De franjas daria mil.
Tentando que o pobre não percebesse Que como ele eu chorava Digo-lhe: esquece o passado, esquece Todo o mundo é composto de mudança Já um grande poeta cantava.
É o progresso meu amigo. Longos anos tolhido Liberto fez ouvir a sua voz Bom? Mau? Não sei, não to sei dizer Eu só sei que por vezes faz doer A seres assim como nós.
Virgínia Maria Dias- Poetas de Peroguarda
*
TEMPOS QUE EU VIVI
A madrugada espreguiçava-se fresca e leve
No céu apagavam-se as estrelas
Guiadas pela mão do almocreve.
Lá iam para o trabalho as parelhas.
Que contraste! Entre a nota alegre das guisadas
E a moda dolente que o almocreve cantava
Da ribeira vinha um cheiro a mentraste
E as falas de alguém que já lavava.
Cruzam-se os ranchos de camponesas.
Gritam umas às outras: Bom dia!
D'entre o lenço espreita-lhe a beleza
Serena, rosada, sádia.
Peroguarda, densamente povoada,
Nem parecia pequena.
Pelas ruas corria o bulício, o alarido
De bandos de criançada,
Jovens e velhos em grupos pelas empenas
Os jovens para verem passar a sua amada
Os velhos na reza do tempo já vivido.
As portas abertas de par-em-par
Davam um ar de alegria e franqueza
Um dizer: Vem, vem partilhar
O pão da minha mesa.
Pão sempre escasso
Que só a miséria abundava
Pão num fraternal abraço
Mesmo sendo escasso se dava.
Enquanto se aquecem ao Sol
Donas de casa costuram e fazem meia
Falam de si, e porque não ir no rol
Também um pouco de vida alheia?
Passam rebanhos com alegre chocalheira
Tocam flauta os moços pastores;
À tardinha debaixo de uma velha oliveira
Reúnem-se para a conversa os lavradores.
Seria o vento que contava?
É que o povo hábil mestre em sátiras
Trocista logo a apelidava
De: oliveira das mentiras.
Foi nesta vivência singela
Que nasci e me criei para a vida
Sofri sim. Mas amei-a! E de vivê-la,
Sempre me senti engrandecida.
Dela sinto uma profunda saudade!
E se vozes dizem que estou errada
Oponho-lhe que nesse tempo de frugal simplicidade
A família não vivia separada.
Divertíamo-nos com o nosso cantar
Não havia rádio nem televisão
Mas também não ouvíamos falar
De droga, sida, emigração.
Virgínia Maria Dias - Poetas de Peroguarda
A Michel Giacometti
Canta o semeador Enquanto semeia o trigo Sua cantiga é de dor: Adeus Michel meu amigo.
Abre-se a terra ao encanto Daquela cantiga triste E escreve em sulcos de pranto Adeus Michel que partiste.
Tece um ramo a camponesa De um adeus que traz consigo Murmura como quem reza Adeus Michel meu amigo.
Passarinho sempre alegre Porque cantas hoje tão triste? Choro um adeus que se despede Adeus Michel que partiste.
Virgínia Maria Dias -Poetas de Peroguarda
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Michael, mil vezes obrigado Quiseste a tua morada Neste canto ignorado Aldeia de Peroguarda
Conhecemo-nos! Logo ficámos amigos Unidos por elos de afinidade O mesmo anseio de Liberdade O mesmo amor pelos oprimidos O que sentíamos trancendia os partidos Por siglas não podia ser rotulado Era algo tão puro e tão sagrado Como um sorriso confiante de criança Por esse sorriso de esperança Michael, mil vezes obrigado
Quantas vezes eu te vi comovido Com a fome que então havia Ai, jamais o pão faltaria Fosses tu campo de trigo Dos teus ideais meu amigo Sabia a gente de Peroguarda Por isso te oferecia entusiasmada Seu cante em toda a plenitude Entre essa gente rude Quiseste a tua morada
Porquê? Perguntam vozes admiradas. Porquê este teu pedido Querer neste cantinho esquecido A tua última morada O que há em Peroguarda Para ti de tão sagrado? Queres tu ser embalado Por esse cante tão triste Que um dia descobriste Neste recanto ignorado
Canto feito de papoilas e trigais Macerados em jeiras de dor. Logo tu musicólogo de valor Soubeste decifrar seus tristes ais, Homem mais culto que os demais Neles viste a tua dor retratada. Os grandes desta pátria tão amada Não amam quem possui saber ou arte Soube entender-te, soube amar-te A aldeia de Peroguarda.