1.8.08

Rua Michel Marie Giacometti, Peroguarda


Rua Michael Giacometti - Peroguarda

Praça Prof. Joaquim Roque, Peroguarda


PEROGUARDA (casa Prof. Joquim Roque)

Joaquim Baptista Roque
Nasceu a 26 de Janeiro de 1913, em Peroguarda, concelho de Ferreira do Alentejo
Faleceu a 2 de dezembro de 1995, em Lisboa



Alentejo Cem por Cento
Subsídios para o estudo dos Costumes, Tradições, Etnografia e Folclore Regionais
1ª Edição, Beja, 1940
2ª Edição, Ferreira do Alentejo, 1990
Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo
195 páginas



Festas e Usanças:


O Alentejo é um manancial de costumes curiosos. São conhecidas e praticadas em todas as povoações do Alentejo, as Festas anuais em honra dos respectivos oragos, e outras usanças que a seguir mencionamos:

Festa anual em honra da Padroeira de Peroguarda (Santa Margarida): - Realiza-se nos meses de Setembro ou Outubro, quando já terminados os trabalhos das ceifas, não só por este motivo mas também porque os donativos, angariados a partir de três ou quatro meses antes da festa, são mais abundantes quando o trabalhador começa as árduas mas lucrativas tarefas das ceifas em que chega a atingir 25$00 e 30$00 diários – (salários nunca igualados em qualquer outro serviço) – e ainda porque o trabalhador “consertado ao ano”
(os contratos são sempre feitos de Santa Maria a Santa Maria – 15 de Agosto – e nesse mesmo dia se recebem as soldadas anuais, constituídas por trigo ensacado ou em semeadura) e em iguais circunstâncias o proprietário que tem acabado de recolher a sua seara, da qual, um, dois ou três alqueires são entregues aos “festeiros” para que promovam a sua venda, reservando o dinheiro para as despesas que nunca faltam.

Os festeiros angariam donativos percorrendo as ruas da povoação, e muitas vezes as dos povoados vizinhos, em comissões de três ou quatro, um dos quais leva pendente da mão uma estampa que representa Santa Margarida, enfeitada com várias fitas: “uma esmolinha para a Festa de Santa Margarida”; sem a imagem da Santa, nada feito. O portador desta veste opa encarnada; os outros levam foguetes para atirar ao ar como sinal de terem começado o peditório e quando alguma esmola mais avultada lhes vai cair no saco do trigo ou da bolsa do dinheiro. Em geral, um alqueire de trigo ou 20$00 merece o “foguete da esmola”, que também é agradecida com as rituais palavras: “a Santinha lhe agradece a esmola”.
O peditório é feito todos os domingos e dias santos e, na última semana que precede a festa, quase todos os dias.

As raparigas da aldeia, à porfia, primam por oferecer para a quermesse uma “prenda” que mais seja cobiçada e disputada depois entre o seu rapaz e algum rival.

As almofadas, bordados e outros objectos de adorno doméstico, trabalhados por mãos habilidosas, enchem sempre as bancadas da barraca da quermesse. Esta realiza-se, durante as duas primeiras noites de festa, no largo em frente à igreja, transformado em arraial, onde a Filarmónica se faz ouvir em prolongado concerto.

Nestes dias de festa toda a gente – pobres, ricos e remediados – veste o seu fatinho novo. São dias de alegria e de verdadeira festa do povo!

Os campos dormem, por uns bons dois meses, o seu sono reparador e fecundante … e o rural – seu batalhador intrépido – parece querer dormir também, embriagado num sonho todo de amor, longe das lides extenuantes das ceifas que terminaram, parecendo-lhe ouvir o ensurdecedor ruído da máquina debulhadora que, depois de tragar moios do precioso cereal, repousa já no casão por mais um ano.

Estamos entretanto em dia de festa! Dela vamos tratar. Primeiramente a parte religiosa, depois a profana:


1 – A parte religiosa consta da Missa cantada, com Primeira Comunhão de crianças que, durante ela, cantam hinos religiosos. Depois da Missa cantada que termina entre a uma e as duas da tarde, o estômago já aceita, de bom grado, o suculento almoço que neste dia é melhorado não só por ser “dia de festa” mas também porque nele sempre se espera a visita de pessoa de família ou amigo que compartilha da alegria da Aldeia em festa. Cerca das três horas da tarde, começa o Sermão ouvido com religioso silêncio, terminando pela proclamação e como que investidura dos novos festeiros, aqueles a quem cumbe organizar a festa do ano seguinte.


Começa então a organizar-se luzido cortejo:

À frente “O Guião das almas”, depois as cruzes, as lanternas, as imagens a sorrirem nos andores, os anjinhos com suas cúmplices vestes e flores, o palio e todo o povo, uns a chorar de comovida alegria, outros entoando hinos de louvor a Deus, vão percorrendo, mansamente, as ruas da povoação, todas festivamente engalanadas, o chão coberto de verdura, as janelas com colgaduras – são as tradicionais, as grandes procissões de Peroguarda! Como é encantadora e digna do nosso respeito, a fé deste povo! Como nos enche o coração, a alegria de compartilhar com ele essa mesma fé, de sentir nele toda a grandeza da sua cumplicidade e ingénua candura!...

Nestas procissões magnas são conduzidos todos os andores, em número de oito, aos ombros da fina rapaziada da Aldeia. Outros pegam no palio, sob o qual o prior conduz o Santíssimo Sacramento. Mesmo com o advento da Republica, em Peroguarda não deixaram de fazer procissões! Estas fazem-se geralmente, duas vezes por ano – pela Festa Anual e pela Páscoa (Procissão da Ressureição).

A procissão já percorreu as principais ruas da Aldeia, vem Rua do Lobo acima… está a entrar na igreja.
Vai seguir-se a Exposição do Santíssimo em rica e artística custódia de prata e ouro. Ouvem-se já o “Salutaris Hóstia”, algumas preces pelas necessidades espirituais e temporais da freguesia, o “Tantum Ergo”…
O padre sobe ao altar, dá a Bênção, e já ecoam no ar as harmoniosas notas do “Queremos Deus” ou da "Salve Rainha Nobre Padroeira”, quando o povo se retira em ordenada debandada.
A primeira parte do programa está cumprida.

Alentejo cem por cento – Prof. Joaquim Roque
(Costumes, Tradições, Etnografia e Folclore Regionais).








Rezas e Benzeduras Populares (Etnografia Alentejana)
1ª Edição, Beja, 1946
Minerva Comercial
Carlos Marques & Cª. L.da - BEJA
117 páginas

Rezas e Benzeduras Populares


À conversa no Largo da Igreja, no coração da aldeia alentejana de Peroguarda, era impossível não se falar do Professor Joaquim Roque, filho dilecto da terra, saudosamente recordado e que deu lugar a toponímia no largo em que viveu.
A casa onde habitou, de piso térreo bem ao estilo alentejano, forma ângulo no largo hoje designado Largo Professor Joaquim Roque, donde nasce a Rua Michel Marie Giacometti, figura de destaque nas recolhas etnográficas do Portugal profundo e que muito conviveu com o Professor Joaquim Roque.
Voltando à conversa, Peroguarda mantém no seu coração a mágoa do espólio do Professor estar a ser cuidado pelo Município de Portel e não pelo de Ferreira de onde Peroguarda é Freguesia.


“Rezas e benzeduras Populares”, obra datada de 1946, foi um dos trabalhos mais emblemáticos do professor Joaquim Roque, e que mereceu muitas referências na época, quer em Portugal quer no Brasil.

Essa obra de recolha popular encontra-se na memória de Peroguarda e na da cultura brasileira, pois na portuguesa parece ter caído no esquecimento.

Oração contra a espinhela caída
Espinhela caída
Portas ao mar
Arcas, espinhelas
Em teu lugar
Assim como Cristo
Senhor nosso, andou
Pelo mundo, arcas
Espinhelas levantou
Espinhela caída
Portas para o mar…
Arcas, espinhela
Em teu lugar…
Assim como Jesus Cristo
Pelo mundo andou
Arcas, espinhela
Levantou...”


Numa obra interessantíssima do professor Joaquim Roque "Benzedura de olhados, fitos e fitados", pode ler-se : "Os olhados - segundo se crê - atacam com preferência e de preferência, as criancinhas de tenra idade... e logo solícitas as mãezinhas, para as livrarem de tão terrível moléstia, que em poucos dias lhes pode levar, correm a benzê-las contra os maus olhados, fitos e fitados, olhares de inveja, de lua etc.

Como de costume, verifica-se primeiramente a existência da doença deitando alguns pingos de azeite num pires com água, sobre o qual se faz o sinal da cruz, ao mesmo tempo que rezam o credo (credo em cruz). Se o azeite desaparecer, diluindo-se completamente na água, a criança ou adulto, sofre de olhado.


Ensalmo para tratamento do mau olhado.

Eu te benzo Fulano
de lua e d’olhado
de fito e fitado...
a lua, aqui’ passou
a cor de Fulano levou
e a del’aqui deixou
Quando aqui tornar a passar
A cor de Fulano deixará
e a dela levará...
Jesus é verbo
Verb'é Deus
S’é olhado
Benza-te Deus!
dois olhos t’olharam mal
três t’hão de olhar bem;
que é Deus Pai, Deus Filho,
Deus Espírito Santo Amém.
Fulano, se te dói a cabeça,
Valha-te Senhora Santa Teresa,
se te doem os olhos
Valha-te Senhora Santa Luzia!
se te dói o peito,
valha-te o Senhor dos Aflitos
se te doem os braços,
valha-te o Senhor Jesus dos Passos!
se te dói a cintura,
valha-te a Senhora Virgem Pura!
se te dói a barriga,
valha-te a Senhora Santa Margarida!
se te doem as pernas
valha-te o Senhor Santo Amora!
se te dói o corpo todo
valha-te o Senhor Todo Poderoso!
em louvor de Deus e da Virgem Maria,
Padre Nosso e Ave Maria.

Adeus mau olhado e sua má olhadura que te somes nas profundas do Inferno mal esta benzedura é pronunciada.
O povo acredita no poder mágico dos olhos, e crê piamente nesse fluido estranho.
Não é difícil encontrar-se frases bem características, que definem bem essa força invisível. "Quem tem olho é rei"! E assim é de fato. O homem, que tem grande visão das coisas domina o seu meio e comanda o seu semelhante. Fulano tem "olho vivo", sicrano tem "olho bem aberto".


Benzedura recolhida pelo professor Joaquim Roque:

Jesus é verbo,
Verbo é Deus,
Fulano tem um quebranto,
Benza-o Deus.
Deus te benza, e benza-te Deus:
De lua e d’ar e d’olhadela;
De dores nervosas e de sol no miolo;
De lua nas tripas e d’azar;
E de mal d’inveja e de tod’o mal
Dois olhos te viram mal.
E três te viram bem;
E Deus Pai, Deus Filho,
E Deus Espírito Santo Amém
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Padre Nosso e uma Ave Maria.

A oração pode ser rezada três vezes fazendo cruzes sobre a água. Verificado o mal benze-se a criança rezando a oração nove vezes: Três enquanto se fazem cruzes sobre a cabeça, outras três sobre o peito e as restantes sobre as costas.