

Em tempo de Boa Vontade
Francisco Costa
«Só ele foi capaz de descer às nossas raízes, abrir a terra, ir ao fundo delas, cheirar a essência delas, trazê-las ao de cimo. E a gente deu-as, e ficámos ainda mais ricos do que éramos. Só ele teve esse condão.»
(Virgínia Maria Dias, sobre Michel Giacometti,em «Polifonias», documentário, RTP 2, 29.12.97)
O homem, o caderno e o gravador
«É uma história bastante simples: é um homem que vem de outro país, que escutou atentamente os homens destas terras, e sabe que cantar e tocar é o atributo primeiro dos povos que conheceu. Tinha um caderno e um gravador. Quem será o homem? Vem para nos espiar? Nos prender? Vem para nos roubar do pouco que temos?»
Era assim, da mais bela e singela forma de agarrar o espectador, que começava, em forma de programa de televisão, aquela que foi a melhor prenda da época de Natal que a RTP tinha este ano para nos oferecer. Honra lhe seja!
Numa coprodução portuguesa, francesa e belga, transmitiu a estação da 5 de Outubro na passada segunda-feira um documentário a todos os títulos excepcional, verdadeira peça de amor por um povo - por todos os povos afinal - e pelas suas riquezas culturais e tradições artísticas, na exacta medida em que, falando-nos da obra de um investigador atento e rigoroso, nos deu a conhecer, ao mesmo tempo, a sua grandeza humana e o objecto riquíssimo da sua investigação.
O documentário «Polifonias» realizado por Pierre-Marie Goulet, mas no qual se destacaram inúmeras outras contribuições como a de Sérgio Godinho na autoria de um belíssimo texto, debruçava-se sobre o papel desempenhado na cultura e investigação etnomusicológica portuguesas por esse andarilho da recolha das tradições que foi o «nosso» Michel Giacometti. E não podia ser mais adequado à divulgação do trabalho ardoroso e apaixonado deste corso que aqui chegou e se apaixonou pelas nossas gentes e pela nossa música tradicional, enquanto criador e organizador das célebres e históricas Antologias dos Arquivos Sonoros Portugueses e como autor de um dos mais inesquecíveis programas em 40 anos de televisão portuguesa - «Povo que Canta» - também ele um acto de resistência interna, em plena ditadura da televisão fascista, no Portugal dos anos 60.
Inspirando-se em muitas imagens e sons desses memoráveis documentários, a equipa que se deslocou até nós foi trilhar de novo os mesmos caminhos, encontrar os mesmos sítios que então serviram de enquadramento paisagístico aos espécimes captados, gravados e filmados. E de novo foi ao encontro dos cantores de hoje, demorando-se por cá, quase exclusivamente em terras do Alentejo, e dando-nos depois a conhecer a música e os criadores da aldeia natal de Giacometti, em Zicavu, na Córsega. Talvez nunca, como neste filme, a câmara nos tenha desvendado de forma tão envolvente e ao mesmo tempo tão rigorosa e «distanciada» os rostos e as vozes de um coro alentejano, como na filmagem fabulosa dessa impressionante versão de «Ao Romper da Bela Aurora». Talvez nunca tenhamos descoberto, como aqui, a beleza impetuosa mas serena dos rostos, o calor transbordante dos corações, a força telúrica de uma paisagem, os silêncios sentidos e nascidos do sofrimento ciclicalente repetido e continuado de um povo que persiste em resistir à opressão, seja qual for a forma que esta assuma e o enquadramento sócio-político-cultural de que conjunturalmente se revista, consoante os tempos e os modos.
Peça exemplar da arte do documentário televisivo, «Polifonias» deu-nos mais uma vez a ver como a maestria técnica e o domínio dos meios de produção é essencial para que depois possamos esquecer-nos deles, no acto de transmitir gradualmente o calor da Arte e ultrapassar a própria frieza da Técnica, mas jamais sendo indiferente a posição da câmara, o cuidado do enquadramento, o próprio movimento exterior e interior ao plano. Sendo verdade que, na arte do documentário, o travelling representa talvez o mais íntegro sinal de respeito pelo objecto que se filma e procura interpretar e dar a entender, assim nos pudemos deslumbrar com os lentíssimos movimentos de câmara através dos quais se podiam descobrir as esquinas e os caminhos - mas também os Homens - ou a duração infinita dos planos gerais em que se perdiam de vista as montanhas da Córsega envoltas em névoas ou as planuras alentejanas rasgadas por linhas geométricas de contornos insuspeitados, à brasa do calor, ao som de uma canção: «Nesses campos solitários, onde a desgraça me tem, quase ninguém me responde, olho, não vejo ninguém.».
Mas, para sempre também, ficará na memória do espectador essa sequência na qual, em meio de uma panorâmica, de súbito surge no meio de um trio de cantores corsos a silhueta, antes conhecida, do rosto daquele velho alentejano, nesse espantoso encontro multicultural e multilinguístico em terras portuguesas de diversos herdeiros e senhores de tradições que, no fundo, sempre foram o objecto da paixão e o fio condutor do percurso cívico e científico de Michel Giacometti. Tal como dificilmente se voltará a inventar uma definição tão simples (e tão poderosa) para explicar a simples ideia da posse e do vazio, da opressão e da exploração - na expressão contida de Virgínia Maria Dias, ao dizer para a câmara: «Isto que a gente avista é de um só... Repartido, quanto é que isto não dava?».
Por esta capacidade de nos deixarem, ainda e sempre, atentos e despertos para a arte, mas também para a luta, aqui fica um caloroso bem haja aos criadores de «Polifonias».
31.Dezembro.97