29.8.07

A Procissão de Peroguarda


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Festas e Usanças em 1940:


O Alentejo é um manancial de costumes curiosos.
São conhecidas e praticadas em todas as povoações do Alentejo, as Festas anuais em honra dos respectivos oragos, e outras usanças que a seguir mencionamos:


1º - Festa anual em honra da Padroeira de Peroguarda (Santa Margarida): - Realiza-se no mês de Agosto, quando já terminados os trabalhos das ceifas, não só por este motivo mas também porque os donativos, angariados a partir de três ou quatro meses antes da festa, são mais abundantes quando o trabalhador começa as árduas mas lucrativas tarefas das ceifas em que chega a atingir 25$00 e 30$00 diários – (salários nunca igualados em qualquer outro serviço) – e ainda porque o trabalhador “consertado ao ano”(os contratos são sempre feitos de Santa Maria a Santa Maria – 15 de Agosto – e nesse mesmo dia se recebem as soldadas anuais, constituídas por trigo ensacado ou em semeadura) e em iguais circunstâncias o proprietário que tem acabado de recolher a sua seara, da qual, um, dois ou três alqueires são entregues aos “festeiros” para que promovam a sua venda, reservando o dinheiro para as despesas que nunca faltam.


Os festeiros angariam donativos percorrendo as ruas da povoação, e muitas vezes as dos povoados vizinhos, em comissões de três ou quatro, um dos quais leva pendente da mão uma estampa que representa Santa Margarida, enfeitada com várias fitas: “uma esmolinha para a Festa de Santa Margarida”; sem a imagem da Santa, nada feito. O portador desta veste opa encarnada; os outros levam foguetes para atirar ao ar como sinal de terem começado o peditório e quando alguma esmola mais avultada lhes vai cair no saco do trigo ou da bolsa do dinheiro. Em geral, um alqueire de trigo ou 20$00 merece o “foguete da esmola”, que também é agradecida com as rituais palavras: “a Santinha lhe agradece a esmola”. O peditório é feito todos os domingos e dias santos e, na última semana que precede a festa, quase todos os dias.


As raparigas da aldeia, à porfia, primam por oferecer para a quermesse uma “prenda” que mais seja cobiçada e disputada depois entre o seu rapaz e algum rival.As almofadas, bordados e outros objectos de adorno doméstico, trabalhados por mãos habilidosas, enchem sempre as bancadas da barraca da quermesse. Esta realiza-se, durante as duas primeiras noites de festa, no largo em frente à igreja, transformado em arraial, onde a Filarmónica se faz ouvir em prolongado concerto.
Nestes dias de festa toda a gente – pobres, ricos e remediados – veste o seu fatinho novo. São dias de alegria e de verdadeira festa do povo!


Os campos dormem, por uns bons dois meses, o seu sono reparador e fecundante … e o rural – seu batalhador intrépido – parece querer dormir também, embriagado num sonho todo de amor, longe das lides extenuantes das ceifas que terminaram, parecendo-lhe ouvir o ensurdecedor ruído da máquina debulhadora que, depois de tragar moios do precioso cereal, repousa já no casão por mais um ano.
Estamos entretanto em dia de festa! Dela vamos tratar. Primeiramente a parte religiosa, depois a profana:
1 – A parte religiosa consta da Missa cantada, com Primeira Comunhão de crianças que, durante ela, cantam hinos religiosos. Depois da Missa cantada que termina entre a uma e as duas da tarde, o estômago já aceita, de bom grado, o suculento almoço que neste dia é melhorado não só por ser “dia de festa” mas também porque nele sempre se espera a visita de pessoa de família ou amigo que compartilha da alegria da Aldeia em festa. Cerca das três horas da tarde, começa o Sermão ouvido com religioso silêncio, terminando pela proclamação e como que investidura dos novos festeiros, aqueles a quem cumbe organizar a festa do ano seguinte.Começa então a organizar-se luzido cortejo:


À frente “O Guião das almas”, depois as cruzes, as lanternas, as imagens a sorrirem nos andores, os anjinhos com suas cúmplices vestes e flores, o palio e todo o povo, uns a chorar de comovida alegria, outros entoando hinos de louvor a Deus, vão percorrendo, mansamente, as ruas da povoação, todas festivamente engalanadas, o chão coberto de verdura, as janelas com colgaduras – são as tradicionais, as grandes procissões de Peroguarda! Como é encantadora e digna do nosso respeito, a fé deste povo! Como nos enche o coração, a alegria de compartilhar com ele essa mesma fé, de sentir nele toda a grandeza da sua cumplicidade e ingénua candura!...
Nestas procissões magnas são conduzidos todos os andores, em número de oito, aos ombros da fina rapaziada da Aldeia. Outros pegam no palio, sob o qual o prior conduz o Santíssimo Sacramento. Mesmo com o advento da Republica, em Peroguarda não deixaram de fazer procissões! Estas fazem-se geralmente, duas vezes por ano – pela Festa Anual e pela Páscoa (Procissão da Ressureição). A procissão já percorreu as principais ruas da Aldeia, vem Rua do Lobo acima… está a entrar na igreja.


Vai seguir-se a Exposição do Santíssimo em rica e artística custódia de prata e ouro. Ouvem-se já o “Salutaris Hóstia”, algumas preces pelas necessidades espirituais e temporais da freguesia, o “Tantum Ergo”…O padre sobe ao altar, dá a Bênção, e já ecoam no ar as harmoniosas notas do “Queremos Deus” ou da "Salve Rainha Nobre Padroeira”, quando o povo se retira em ordenada debandada.


Alentejo cem por cento – Prof. Joaquim Roque

(Costumes, Tradições, Etnografia e Folclore Regionais). 1940

16.8.07

Encontro





Era Outono!

Chovera, mas a tarde caía,

num sol-pôr bonito, suave.

No arvoredo, nem uma folha bulia.


Sereno, o campo adormecia,

no trinado duma ave.

Dezasseis anos, ingénuos como a chita;

Em passos de pressa, eu regressava a casa.


Encontrei-te a meio do caminho.

Teu olhar, mistério e fogo, no meu pousou.

Meu coração, jovem asa,

Ainda preso ao ninho,


Estremeceu ergueu-se, voou.

Ao encontro do teu que o chamava.

E tudo emudeceu, parou como que suspenso.

Para logo se animar num canto imenso…


Um primeiro amor despontava.

Com a força das coisas únicas e infinitas.




Poema de Virgínia Maria Dias - "Poetas de Peroguarda"