O Alentejo é um manancial de costumes curiosos.
São conhecidas e praticadas em todas as povoações do Alentejo, as Festas anuais em honra dos respectivos oragos, e outras usanças que a seguir mencionamos:
Os festeiros angariam donativos percorrendo as ruas da povoação, e muitas vezes as dos povoados vizinhos, em comissões de três ou quatro, um dos quais leva pendente da mão uma estampa que representa Santa Margarida, enfeitada com várias fitas: “uma esmolinha para a Festa de Santa Margarida”; sem a imagem da Santa, nada feito. O portador desta veste opa encarnada; os outros levam foguetes para atirar ao ar como sinal de terem começado o peditório e quando alguma esmola mais avultada lhes vai cair no saco do trigo ou da bolsa do dinheiro. Em geral, um alqueire de trigo ou 20$00 merece o “foguete da esmola”, que também é agradecida com as rituais palavras: “a Santinha lhe agradece a esmola”. O peditório é feito todos os domingos e dias santos e, na última semana que precede a festa, quase todos os dias.
Nestes dias de festa toda a gente – pobres, ricos e remediados – veste o seu fatinho novo. São dias de alegria e de verdadeira festa do povo!
Estamos entretanto em dia de festa! Dela vamos tratar. Primeiramente a parte religiosa, depois a profana:
1 – A parte religiosa consta da Missa cantada, com Primeira Comunhão de crianças que, durante ela, cantam hinos religiosos. Depois da Missa cantada que termina entre a uma e as duas da tarde, o estômago já aceita, de bom grado, o suculento almoço que neste dia é melhorado não só por ser “dia de festa” mas também porque nele sempre se espera a visita de pessoa de família ou amigo que compartilha da alegria da Aldeia em festa. Cerca das três horas da tarde, começa o Sermão ouvido com religioso silêncio, terminando pela proclamação e como que investidura dos novos festeiros, aqueles a quem cumbe organizar a festa do ano seguinte.Começa então a organizar-se luzido cortejo:
À frente “O Guião das almas”, depois as cruzes, as lanternas, as imagens a sorrirem nos andores, os anjinhos com suas cúmplices vestes e flores, o palio e todo o povo, uns a chorar de comovida alegria, outros entoando hinos de louvor a Deus, vão percorrendo, mansamente, as ruas da povoação, todas festivamente engalanadas, o chão coberto de verdura, as janelas com colgaduras – são as tradicionais, as grandes procissões de Peroguarda! Como é encantadora e digna do nosso respeito, a fé deste povo! Como nos enche o coração, a alegria de compartilhar com ele essa mesma fé, de sentir nele toda a grandeza da sua cumplicidade e ingénua candura!...
Nestas procissões magnas são conduzidos todos os andores, em número de oito, aos ombros da fina rapaziada da Aldeia. Outros pegam no palio, sob o qual o prior conduz o Santíssimo Sacramento. Mesmo com o advento da Republica, em Peroguarda não deixaram de fazer procissões! Estas fazem-se geralmente, duas vezes por ano – pela Festa Anual e pela Páscoa (Procissão da Ressureição). A procissão já percorreu as principais ruas da Aldeia, vem Rua do Lobo acima… está a entrar na igreja.
Vai seguir-se a Exposição do Santíssimo em rica e artística custódia de prata e ouro. Ouvem-se já o “Salutaris Hóstia”, algumas preces pelas necessidades espirituais e temporais da freguesia, o “Tantum Ergo”…O padre sobe ao altar, dá a Bênção, e já ecoam no ar as harmoniosas notas do “Queremos Deus” ou da "Salve Rainha Nobre Padroeira”, quando o povo se retira em ordenada debandada.
Alentejo cem por cento – Prof. Joaquim Roque

