Sei que vou chegar… e não vou conhecer ninguém!
Pela janela do comboio, vejo correr azinheiras e montados, que vão alternando com as planícies da lonjura.
Lá longe … no fundo do tempo que se me escapou por entre os dedos, parece-me ouvir ainda a voz da minha mãe a chamar-me p’rá ceia.Vou desfiando o meu destino de emigrante, igualzinho ao de milhares de compatriotas que correram atrás da esperança para agarrar um sonho!
Volto, como todos voltam… p’ra morrer no meu país!
Ao menos isso, temos o direito a conquistar!Amesterdão, Roterdão, Eindhoven… lugares emprestados à minha vida.
E sempre o meu Alentejo a minar-me a alma!E o cante dos ganhões a povoarem-me o coração morto de saudade… “O Alentejo é que éi o celêro da nação…”Um dia, em Antuérpia, quando acidentalmente passava numa rua junto ao cais… ouvi cantar “À Alentejana”. E entrei no modesto “barzinho” donde partia a música.
Do outro lado do balcão, o proprietário, alentejano dos quatro costados, emigrado na Bélgica ia p’ra quinze anos, confidenciou-me com os olhos marejados de lágrimas, que todos os dias punha na pequena aparelhagem sonora… uma “cassete” com cantares alentejanos, “sabe senhor… é p’ra ver se não morro de saudade”!
Eu, como ele, longe dos barros vermelhos que nos viram crescer… percebi o seu sentir igual ao meu!Recordámos os campos de trigo com papoilas encarnadas... e chorámos juntos!
É sempre assim, o destino do emigrante alentejano!
Colhe beterraba na Holanda, fingindo que ceifa trigo no Alentejo!
E cá vou eu, uma vintena de anos depois de ter partido… de regresso ao solo amado.
Naturalmente que tudo está diferente!
A velha casa onde nasci, fechada há um ror de anos, estará de certo, com a fachada decadente. Em vez da cal de outrora, há-de estar abraçada de musgo e humidade.
E o quintal…com a romanzeira, que eu, irrequieto, trepava, nas minhas brincadeiras de menino, julgando escalar castelos, onde ia vencer dragões vomitando fogo, será um imenso matagal, morto de saudade das mãos do meu pai, que lhe podava as árvores de fruto, e lhe plantava nos canteiros cuidados, as “roseiras chá” que a minha mão adorava.
Mas isso… foi ”há mil anos”, quando eu tinha a alma branca dos meninos felizes!
Meus pais, repousam há muito, no seu sono eterno... no campo santo da vila; e eu, aqui estou de volta, com o meu estatuto de emigrante, supostamente bem sucedido, na procura de um encontro com as minhas raízes, e de um suave repouso para os olhos cansados de chorar anos a fio…a saudade da planície.
Balanceio a minha solidão ao ritmo do “pouca terra, pouca terra” , desde comboio retorno!
Já descortino ao longe, os contornos ainda pouco nítidos dos vermelhos telhados das casas da vila.
Salta-me o coração do peito, no anseio de pisar em breve o solo onde cresci.
E como o sonho também se agarra, quando o anseio de ser feliz já não nos cabe no tamanho do coração, cá vou eu, preso nas asas de um sonho do tamanho do mundo, voando para os braços do meu Alentejo, como as andorinhas que em cada Primavera buscam de novo o seu ninho!Hei-de abraçar todos os companheiros de outrora… se ainda me reconhecerem!Hei-de apanhar rãs no charco…como fazia em criança!
Hei-de banhar-me nas ribeiras…onde nadavam as “pardelhas”!
Hei-de embrenhar-me nos verdes trigais…e encher as mãos de papoilas!
Hei-de comer o pão de trigo…para sentir que estou em casa!
Hei-de cantar com os “ganhões”, dançar nos “mastros” ao som de uma qualquer concertina, e perfumar-me de rosmaninho e alecrim…em noites de S. João!
Hei-de beber a água de todas as fontes cristalinas do lugar!
Hei-de mudar o meu destino…e nunca mais emigrar!
Hei-de deitar-me de costas no restolho, olhar o meu céu alentejano…e gritar com todas as minhas forças aos pássaros cinzentos…VOLTEI!
Orlando Fernandes
JORNAL DE FERREIRA - Agosto 2006

